UMA SOLUÇÃO URGENTE PARA O ATENDIMENTO AMBULATORIAL NO HOSPITAL SANSÃO GOMES


Faz parte da cultura do povo tarauacaense que, ao sentir-se doente, a primeira reação seja “procurar o hospital”. Esse comportamento atravessa gerações, passa de pais para filhos e, ao que tudo indica, ainda continuará por muito tempo.

Mesmo com o surgimento das Unidades de Saúde, responsáveis pela chamada Atenção Primária à Saúde (APS), que deveria ser a porta de entrada preferencial do cidadão no Sistema Único de Saúde (SUS), a prática de buscar diretamente o hospital permanece recorrente.

A APS tem como missão promover ações de prevenção, diagnóstico, tratamento e acompanhamento contínuo das condições mais comuns de saúde, por meio das Unidades de Saúde da Família, garantindo cuidado próximo, acessível e integral à comunidade. No entanto, entre o que está previsto na política pública e o que se vive na prática, existe um abismo.

A responsabilidade de cada ente federativo

É importante compreender o papel de cada esfera de governo no sistema de saúde:

Municípios: são os principais responsáveis pela Atenção Básica ou Primária à Saúde, atuando nas Unidades de Saúde da Família, com ações de promoção, prevenção, diagnóstico e acompanhamento.

Estados: têm a atribuição de coordenar a política estadual de saúde, apoiar os municípios e gerenciar serviços de média e alta complexidade, como hospitais regionais, especialidades médicas, cirurgias, UTIs, laboratórios e hemocentros.

União: atua na formulação, normatização, coordenação geral e financiamento do SUS, garantindo a política nacional de saúde.

A realidade de Tarauacá

Em Tarauacá, grande parte da população até procura as unidades básicas de saúde. Mesmo enfrentando dificuldades estruturais, nelas o cidadão recebe consulta, exames e medicamentos custeados pelo poder público. Os casos mais graves, corretamente, são encaminhados ao hospital.

Ainda assim, uma parcela significativa da população prefere ir diretamente ao Hospital Sansão Gomes, que, em tese, deveria atender prioritariamente casos de urgência e emergência. O hospital mantém atendimento ambulatorial e, mesmo com longas esperas, acaba oferecendo consulta, medicação e procedimentos imediatos, o que reforça esse fluxo distorcido.

Classificação de risco: o que diz o protocolo

O atendimento em serviços de urgência e emergência deve seguir protocolos de classificação de risco, nos quais a prioridade não é a ordem de chegada, mas a gravidade do paciente.

No Brasil, o sistema mais utilizado é o Protocolo de Manchester, que classifica os pacientes por cores:

Vermelho – Emergência (risco iminente de morte): atendimento imediato
Laranja – Muito urgente: até 10 minutos
Amarelo – Urgente (risco de agravamento): até 1 hora
Verde – Pouco urgente: até 2 horas
Azul – Não urgente: até 4 horas ou encaminhamento à UBS

O objetivo é garantir segurança, organização e prioridade aos casos mais graves.

Na prática, porém, o hospital acaba atendendo tanto emergências quanto demandas que deveriam ser resolvidas nas unidades básicas, gerando sobrecarga e caos.

Um sistema em colapso

Nas Unidades de Saúde, com a chegada do secretário municipal de Saúde, Romário Costa, há esforços para reduzir filas, evitar madrugadas de espera por fichas e reorganizar o atendimento. Segundo o secretário, o plano da Secretaria está em execução e passa por ajustes conforme as necessidades surgem.

No Hospital Sansão Gomes, entretanto, a situação é crítica. Profissionais trabalham sob intensa pressão, divididos entre pacientes internados, emergências reais e multidões que se acumulam diariamente em busca de atendimento ambulatorial.

Somam-se a isso problemas estruturais históricos: Tarauacá não dispõe de uma rede adequada de esgotamento sanitário, o que favorece a proliferação de doenças. Há ainda as doenças sazonais como gripes, alergias, dengue e outras, que aumentam conforme o período do ano, clima e condições ambientais.

A população também chegou ao limite. Quem procura o hospital já chega armado de paciência, indignação e celular carregado, pronto para gravar vídeos e expor a demora nas redes sociais.

Gestão engessada e decisões distantes

A direção do hospital encontra-se de mãos atadas pela falta de profissionais e pela centralização das decisões em Cruzeiro do Sul.

Transferências de pacientes graves, envio de ambulâncias, acionamento do SAMU,  tudo depende da autorização da regional. Para atender uma emergência em bairros da cidade, o tarauacaense precisa ligar para outro município. Até mesmo uma fratura simples resulta em viagem de 240 km de ida e 240 km de volta.

Não é razoável, nem aceitável.

O limite foi ultrapassado

Não é aceitável que uma idosa chegue ao hospital às 7h da manhã e só seja atendida ao meio-dia, sentada, aguardando. Nenhum Protocolo de Manchester justifica isso.

Não é aceitável que 2.600 exames estejam na fila porque falta pessoal para operar um laboratório moderno e equipado.

Não podemos normalizar o sofrimento das pessoas pobres e doentes. Isso é negligenciar nossa capacidade de indignação, mobilização e cobrança.

Hora de dizer basta

Chegou o momento de união e posicionamento firme.

Prefeito (que é médico), vice-prefeita (advogada), vereadores, Ministério Público, entidades da sociedade civil e o povo precisam se levantar e dizer, juntos: BASTA.

Tarauacá precisa urgentemente de um hospital regional ou de uma unidade regional de média complexidade. Tarauacá, Feijó e Jordão somam cerca de 100 mil habitantes. Não é mais possível viver de mutirões ocasionais e soluções paliativas.

É hora de debater, ouvir, propor, pressionar e buscar caminhos reais.

A saúde da nossa população não pode mais esperar.

Por Raimundo Accioly
Professor e comunicador

1 Comentários

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  1. Que matéria satisfatória, todos deveriam ser cientes disso.

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