ENCONTRO MARCADO: Jorge da Serraria fala sobre história de vida, mandato, zona rural e os desafios de Tarauacá


Vereador relembrou infância difícil, contou que começou a estudar aos 24 anos, falou da influência de Chico Batista em sua trajetória e defendeu diálogo, cobrança e busca de soluções como marcas de seu mandato

O vereador Jorge Jean Feitosa, o popular Jorge da Serraria, foi o entrevistado desta terça-feira, 11 de agosto, no podcast Encontro Marcado, apresentado por Raimundo Accioly.

Em uma conversa marcada por relatos pessoais e avaliações sobre o município, Jorge falou sobre sua origem, as dificuldades enfrentadas durante a infância, sua relação com a zona rural, a entrada tardia na escola, o trabalho durante quase duas décadas na serraria de Chico Batista e sua chegada à política.

Já tratando do mandato, o parlamentar defendeu uma atuação baseada no diálogo com a Prefeitura, secretários e demais instituições, falou sobre demandas das comunidades rurais, esporte e infraestrutura e apontou a drenagem urbana e os alagamentos entre os principais problemas que Tarauacá precisa enfrentar.

Da infância no Acurau à vida na cidade

Jorge contou que nasceu no Amazonas, filho de pai acreano e mãe amazonense. Ainda criança, passou a viver com o pai e chegou aos sete anos à região do Acurau, onde permaneceu até os 17.

Foi um período de grandes dificuldades. Com o enfraquecimento do ciclo da borracha, a família passou a trabalhar com agricultura. O acesso era difícil e até produtos básicos exigiam grande esforço para serem adquiridos.

Durante a entrevista, Jorge lembrou que chegou a carregar entre 25 e 30 quilos por longos trajetos, começando pela manhã e chegando ao destino somente à noite.

Segundo ele, essas experiências ajudaram a formar sua personalidade e sua maneira de encarar o trabalho e a vida.

Jorge começou a estudar aos 24 anos

Um dos relatos que mais chamou atenção durante o programa foi sobre sua educação.

Jorge afirmou que não havia escola na localidade onde vivia. Mesmo chegando à cidade aos 17 anos, somente conseguiu entrar em uma sala de aula aos 24 anos de idade.

Apesar do início tardio, seguiu estudando e concluiu o ensino médio em 2018. Agora, segundo ele, pretende continuar buscando conhecimento e qualificação, inclusive para exercer melhor a atividade parlamentar.

A história mostra uma realidade enfrentada durante décadas por muitas famílias da zona rural de Tarauacá, onde a distância e a falta de escolas impediram ou retardaram o acesso de crianças e jovens à educação.

Uma família de 25 irmãos

Durante a conversa, Jorge também falou sobre suas raízes familiares. Segundo ele, por parte do pai estão as famílias Batista e Feitosa e, por parte da mãe, Ferreira e Pioí.

O vereador contou ainda que eram 25 irmãos. Um deles faleceu em Manaus e atualmente são 24.

Jorge revelou que mantém o sonho de um dia conseguir reunir todos os irmãos e familiares em uma grande confraternização.

A serraria e a influência de Chico Batista

Ao chegar à cidade, Jorge recebeu apoio da avó e do tio, o ex-vereador e empresário Chico Batista, figura que teve grande influência em sua trajetória profissional e política.

Aos 18 anos, começou a trabalhar com o tio na serraria e permaneceu na atividade durante 19 anos.

Jorge se emocionou ao recordar a família e afirmou que Chico Batista foi também uma espécie de professor e mentor. Segundo ele, apesar das divergências que tiveram ao longo dos anos, recebeu do tio ensinamentos que utiliza até hoje.

Chico também teria sido uma das pessoas que mais o incentivaram a estudar.

Jorge destacou ainda o lado social do ex-vereador, especialmente sua relação com moradores do Bairro da Praia, onde, segundo ele, muitas famílias receberam ajuda ao longo dos anos.

Dificuldades de quem vive da produção

Ainda atuando no setor madeireiro, Jorge falou das dificuldades enfrentadas por quem busca sobreviver da própria produção.

Na avaliação do vereador, os obstáculos não atingem somente o setor da madeira, mas também produtores rurais e outras atividades econômicas.

Ele citou especialmente as exigências ambientais e os valores de determinadas multas, defendendo condições que permitam ao trabalhador produzir de maneira regular e sustentável sem inviabilizar economicamente sua atividade.

Entrada na política e primeira candidatura

Jorge afirmou que Chico Batista também foi seu principal incentivador na política.

Depois de participar de articulações e trabalhos eleitorais, decidiu colocar o próprio nome à disposição da população.

A decisão provocou divergências entre os dois, principalmente porque Chico também disputava uma vaga na Câmara. Jorge, entretanto, decidiu seguir seu próprio caminho político.

Na primeira disputa, ficou como suplente. Posteriormente, voltou às urnas, consolidou sua própria base eleitoral e conquistou uma cadeira na Câmara Municipal.

Ao recordar a eleição, agradeceu às pessoas que participaram da campanha e afirmou que procura desenvolver um mandato que possa honrar aqueles que confiaram em seu nome.


“O que a gente tem que buscar é solução”

Um dos pontos centrais da entrevista foi a forma como Jorge define sua atuação parlamentar.

Embora tenha sido eleito por um grupo político diferente daquele que venceu a eleição para prefeito, o vereador afirmou que desde o início do mandato procura manter diálogo com o prefeito Rodrigo Damasceno e com os secretários municipais.

Jorge disse que cobrar faz parte do mandato, mas defendeu que a cobrança seja acompanhada da busca por soluções.

“Ninguém vai ver o vereador Jorge escolhambando ninguém em rede social, que para mim isso aí não é papel de um vereador. O que a gente tem que buscar é soluções.”

O parlamentar citou como exemplo demandas educacionais que pretende discutir conjuntamente com representantes das redes municipal e estadual para encontrar alternativas para comunidades que precisam de melhorias.

Segundo Jorge, sua estratégia é dialogar com Prefeitura, Governo do Estado, secretários e parlamentares para construir parcerias e conseguir atender às reivindicações da população.

“Nós somos empregados do povo”

Jorge também reconheceu que ainda está aprendendo sobre os bastidores e procedimentos do Legislativo.

Para ele, um vereador que não consegue construir parcerias corre o risco de passar pelo mandato sem conseguir transformar suas propostas em resultados concretos.

Ao mesmo tempo, defendeu maior participação da própria população na cobrança aos parlamentares.

“Ligue para o seu vereador. Vereador, nós estamos precisando de uma situação aqui.”

Jorge foi ainda mais direto ao definir a relação entre representantes políticos e sociedade:

“Nós somos empregados do povo.”

Segundo o parlamentar, quem decide entrar na vida pública precisa estar preparado para receber cobranças da população.

Presença nas comunidades rurais

A origem rural aparece também como uma das características de seu mandato.

Jorge afirmou conhecer grande parte das comunidades de Tarauacá. Uma das regiões que conhecia menos era o Rio Muru, onde permaneceu 12 dias durante a campanha eleitoral, visitando moradores e comunidades.

O vereador afirmou que pretende manter essa proximidade e realizar um trabalho que corresponda à confiança recebida tanto dos moradores da cidade quanto da zona rural.

Defesa do esporte

Praticante e apoiador do futebol, Jorge também falou sobre a situação do esporte no município.

Na avaliação do vereador, Tarauacá passou um período de grande dificuldade, inclusive com estruturas esportivas fechadas ou deterioradas, mas atualmente voltou a registrar maior movimentação com campeonatos e atividades.

Ele chamou atenção especialmente para as condições das quadras esportivas e disse que vem acompanhando e cobrando investimentos para recuperar esses espaços.

Para Jorge, proporcionar atividades esportivas às crianças e aos jovens também representa uma política social importante.

Mandato começou forte, mas vereador reconhece que precisa avançar mais

Ao avaliar sua própria atuação, Jorge afirmou que teve um primeiro período bastante produtivo na Câmara, com visitas, indicações e reivindicações.

Também fez uma autocrítica sobre o ritmo do mandato neste ano.

Segundo ele, começou o período de forma mais lenta e precisa ampliar novamente sua movimentação.

O vereador destacou ainda a relação entre os parlamentares e afirmou que a parceria dentro da Câmara pode ajudar a solucionar problemas que dificilmente seriam enfrentados individualmente.

Drenagem e alagamentos estão entre os maiores desafios

Questionado sobre quais problemas priorizaria caso estivesse à frente da Prefeitura, Jorge colocou a drenagem urbana entre as questões mais urgentes de Tarauacá.

Segundo ele, a localização da cidade, o terreno baixo e a presença de igarapés exigem um projeto estruturante de drenagem e canalização.

Jorge observou que recuperar uma rua sem resolver o escoamento da água pode significar perder novamente o investimento.

“Se você ajeita uma rua, mas você não tem drenagem, a água vai passar e vai voltar a mesma situação.”

Para o vereador, Prefeitura e Câmara precisam trabalhar conjuntamente na busca de recursos para enfrentar o problema.

Ele lembrou que, mesmo depois que o Rio Tarauacá baixa, alguns bairros podem permanecer alagados por vários dias devido à dificuldade de escoamento das águas.

Eleições de 2026

Jorge também comentou o cenário eleitoral deste ano e revelou que já definiu seus candidatos para as disputas de deputado estadual, deputado federal e Governo do Acre.

Na entrevista, entretanto, não revelou os nomes dos candidatos que apoiará.

Segundo o vereador, o trabalho durante a campanha será apresentar os nomes escolhidos e, principalmente, discutir os projetos de cada candidatura com a população tarauacaense.

“Na hora que precisar da gente, ligue”

No encerramento do Encontro Marcado, Jorge da Serraria deixou uma mensagem à população e reafirmou sua disposição para atender as comunidades.

“Na hora que precisar da gente, ligue. Eu não vou medir esforços para estar aonde me chamarem.”

O vereador afirmou que está disposto a se deslocar para comunidades da zona rural, mesmo aquelas que exigem horas de caminhada, assim como participar de reuniões nos bairros da cidade.

Jorge disse que, quando uma comunidade precisar apresentar suas reivindicações, poderá procurá-lo para marcar uma visita ou reunião.

Quando me chamarem, precisar, marca a data que a gente vai estar lá para conversar com a comunidade”, afirmou.

A entrevista apresentou ao público não apenas o parlamentar que atualmente ocupa uma cadeira na Câmara Municipal, mas também a trajetória de um homem que saiu da zona rural, enfrentou dificuldades para ter acesso à educação, começou a estudar aos 24 anos, trabalhou durante quase duas décadas em uma serraria e, depois de uma primeira tentativa eleitoral como suplente, chegou ao Legislativo Municipal.

Da redação do Blog do Accioly. 

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