Por anos, a vergonha, o trauma e a dor acompanharam a rotina de Maria Gerliane da Medeiros da Paixão. Agora, uma nova esperança começa a surgir para a jovem moradora do Rio Tarauacá, na região do Igarapé Sacado, que sonha em recuperar a autoestima por meio da colocação de uma prótese ocular.
A história de Gerliane é marcada por um episódio de extrema violência que mudou sua vida para sempre. Ainda adolescente, ela foi atingida por um disparo de espingarda efetuado por um vizinho da comunidade rural onde vivia. O ataque aconteceu, segundo seu relato, após ela recusar um interesse amoroso do agressor.
A consequência foi devastadora: a perda de um dos olhos e um trauma que permanece presente até hoje.
Em junho de 2025, tomada pela esperança de encontrar ajuda, Gerliane enviou uma mensagem ao professor e comunicador Raimundo Accioly. Com palavras simples e carregadas de emoção, ela revelou seu maior sonho: conseguir uma prótese ocular.
“Eu tenho 22 anos. O meu sonho é conseguir um olho de vidro. Eu tenho muita vergonha de sair de casa”, escreveu a jovem.
Sensibilizados pela situação, Raimundo Accioly e sua esposa, a vereadora Janaína Furtado, iniciaram esforços para encaminhá-la ao tratamento. No entanto, naquele período, Gerliane engravidou e precisou dedicar toda a atenção à gestação e, posteriormente, aos cuidados com o bebê, o que acabou adiando o processo.
Uma tragédia que nasceu da rejeição
Em conversa com Raimundo Accioly, Gerliane relembrou os momentos que antecederam a agressão.
Segundo ela, o autor do disparo era considerado um vizinho comum, sem qualquer histórico de desentendimentos entre eles. Dias antes do crime, o homem teria enviado um bilhete perguntando se ela queria manter um relacionamento com ele. A resposta foi negativa.
Pouco tempo depois, veio a violência.
De acordo com seu relato, ela já estava deixando a propriedade do vizinho quando ele entrou na casa, pegou uma espingarda e efetuou o disparo que atingiu seu rosto.
“Eu já estava do outro lado da cerca quando ele pegou e atirou em mim”, contou.
A jovem afirma acreditar que a recusa ao relacionamento foi a motivação do ataque.
Além do tiro que lhe custou a visão de um dos olhos, Gerliane relata que já havia sofrido situações de intimidação anteriormente, quando o agressor tentava assustá-la montado a cavalo nas estradas da comunidade.
O peso invisível das cicatrizes
Embora o ferimento físico tenha cicatrizado, as marcas emocionais permanecem abertas.
Hoje, Gerliane evita sair de casa com frequência. O receio dos olhares e dos julgamentos faz com que ela se isole socialmente.
“Eu tenho vergonha de sair. Muita gente fica olhando para mim e eu me sinto envergonhada. O meu sonho é colocar um olho”, desabafou.
A falta da prótese afeta diretamente sua autoestima e sua confiança para conviver em ambientes públicos.
A esperança ganha força
Em 2026, a história de Gerliane voltou a mobilizar pessoas dispostas a ajudá-la.
Recentemente, Raimundo Accioly e a vereadora Janaína Furtado apresentaram o caso ao secretário municipal de Saúde, Romário Costa. Sensibilizado com o relato da jovem, o gestor assumiu o compromisso de buscar todos os encaminhamentos necessários para viabilizar o atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Após conversar pessoalmente com Gerliane e ouvir sua trajetória, Romário já determinou o início dos protocolos necessários, que incluem exames, avaliações especializadas, agendamentos e demais etapas exigidas para a colocação da prótese ocular.
Segundo o secretário, a Prefeitura de Tarauacá, por meio da Secretaria Municipal de Saúde e com apoio do prefeito Rodrigo Damasceno, não medirá esforços para ajudar a jovem a alcançar esse objetivo. “Vamos todos ajudá-la”
A vereadora Janaína Furtado, que acompanha a situação desde o primeiro pedido de ajuda, afirma que continua esperançosa com a possibilidade de ver Gerliane realizar seu sonho.
“Vamos todos ajudá-la. É uma jovem mulher que sofreu uma agressão violenta, levou um tiro no rosto e luta diariamente para se recuperar desse trauma. Nossa expectativa é que ela consiga recuperar a autoestima e voltar a viver com mais confiança”, destacou.
Mais que uma prótese, um recomeço
Para muitas pessoas, uma prótese ocular pode parecer apenas um procedimento estético. Para Gerliane, significa muito mais.
Representa a possibilidade de voltar a caminhar pelas ruas sem medo dos olhares, de reconstruir a autoconfiança abalada pela violência e de deixar para trás uma parte dolorosa da sua história.
Enquanto aguarda os próximos passos do tratamento, a jovem segue alimentando o mesmo sonho que compartilha há anos: recuperar não apenas a aparência, mas também a esperança de viver sem que a agressão sofrida continue definindo quem ela é.
Blog do Accioly acompanha o caso e torce para que, em breve, Gerliane possa celebrar a realização de um sonho que vai muito além da colocação de uma prótese: o resgate da sua dignidade e autoestima.


