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segunda-feira, 15 de agosto de 2022

"Brasil sempre foi país do voto econômico", diz analista



Disputa entre presidente e ex é inédita no país, frisa jornalista Thomas Traumann. Como eleitorado "ou ama ou odeia" Lula ou Bolsonaro, "fake news" não pesarão tanto nas urnas quanto economia e flexibilização de armas.

Disputada pelos dois líderes mais relevantes da política brasileira atual, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e mandatário em exercício, Jair Bolsonaro, começa na terça-feira (16/08) uma campanha eleitoral inédita no maior país da América Latina.

Falando à agência de notícias Lusa, o jornalista e analista político Thomas Traumann antecipou que a inédita disputa entre um presidente e um ex-presidente deverá monopolizar as atenções dos brasileiros. Dentro dessa perspectiva, ele não crê que os demais adversários possam incomodar os líderes na campanha.

"É a primeira vez na história do Brasil e uma das raras histórias no mundo que você tem um concorrente que é ex-presidente. Isso é uma coisa muito importante, porque muda completamente a característica da campanha, e significa que nós temos dois personagens que são conhecidos por quase 100% dapopulação", frisou Traumann.

"São dois personagens que já foram testados e, além disso, produzem sentimentos muito fortes na população. Os brasileiros ou amam ou odeiam o Lula, ou amam ou odeiam o Bolsonaro."

Esse alto nível de conhecimento dos eleitores manifesta-se nas sondagens divulgadas no país: de forma geral, elas apontam Lula (PT) com pouco mais de 40% das intenções de voto, contra mais de 30% para Bolsonaro (PL).

"Raramente você vai achar brasileiros que são indiferentes aos dois. Acho que essa é a grande característica desta eleição." Isso explicaria por que fracassaram todas as tentativas nos últimos meses para promover um terceiro candidato que pudesse furar a polarização. Traumann, prevê que Lula e Bolsonaro vão somar mais de 80% dos votos válidos já no primeiro turno.

Senadora Simone Tebet (MDB) entrou no páreo presidencial em julho Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Mulheres como voto decisivo

Além deles, concorre pelo Palácio do Planalto o ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT), em terceiro lugar nas sondagens, seguido pelas senadoras Simone Tebet (MDB) e Soraya Thronicke (União Brasil), recém lançada como candidata e que terá grande espaço para fazer propaganda eleitoral devido à dimensão de seu partido.

"Bolsonaro e Lula da Silva são os dois grandes, os dois políticos mais populares do século 21 no Brasil. Eles têm bases populares reais, que não são partidárias ou regionais. Eles representam duas visões muito diferentes do Brasil e têm essa relação muito próxima do eleitorado. Acho que isso faz esta campanha ser muito diferente de qualquer coisa a que já se assistiu", comentou Traumann.

O especialista brasileiro, que também se dedica a analisar sondagens qualitativas, disse acreditar que a disputa de 2022 tem como principal campo de batalha conquistar apoio das mulheres que recebem entre dois e cinco salários mínimos, têm rendimentos irregulares e são, em sua maioria, "chefes de família", ou seja, têm filhos, mas não maridos.

"É esse grupo que vive nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, de São Paulo, Minas Gerais, que sente a inflação de uma forma muito pesada. Elas têm críticas ao Bolsonaro, mas não têm simpatia por Lula, porque também sentiram a recessão de 2014, 2015 e 2016."

"Esse é o grupo onde acredito que será decisivo e pelo qual os candidatos lutarão num grande campo de batalha", avalia o Traumann, para quem a economia é o tema central que deverá definir o voto das mulheres e também de outros segmentos da população.

"O Brasil é, historicamente, e sempre foi, o país do voto econômico. Toda a nossa teoria na ciência política indica que o voto econômico nada de braçada no Brasil. A questão toda é que o Brasil está um país mais pobre do que era há quatro anos, mais pobre que era há oito anos, mais pobre do que era há 12 anos."
Peso do dinheiro na frente das notícias falsas

Seguindo nesta linha de raciocínio, Thomas Traumann acredita que o aumento do valor dos programas sociais aprovados no Congresso nos últimos meses, a criação de programas para categorias como motoristas de caminhões e táxis, e as verbas destinadas a parlamentares devem impulsionar os números de Bolsonaro nas próximas semanas, acirrando a disputa com Lula.

"Literalmente, é dinheiro que está caindo na mão das pessoas, somado à queda na taxa da inflação. Tem um efeito direto para mim, não há dúvida nenhuma." Questionado sobre o papel das fake news na corrida eleitoral, o jornalista considera que em 2022 elas não serão tão determinantes quanto foram em 2018, já que ambos os líderes da disputa são muito conhecidos, e o eleitorado já tem uma opinião formada sobre eles.

Outros dois temas, porém, terão peso: o aborto e a flexibilização de armas. "As mães pobres do Brasil até aguentam muita coisa do Bolsonaro, mas o fato de que as armas estão liberadas e que matam os filhos delas – isso não. Ao mesmo tempo, elas são contra o aborto."

Segundo dados da Justiça Eleitoral, termina na segunda-feira o prazo para registro das candidaturas a presidente e vice-presidente da República, governadores e vice-governadores, senadores e respetivos suplentes, deputados federais e deputados estaduais ou distritais.

Na terça-feira começa a propaganda eleitoral dos candidatos, incluindo divulgação na internet e por alto-falantes, carreatas ou passeatas. A campanha termina a 1º de outubro, véspera do primeiro turno das eleições.

Em 26 de agosto começa o horário eleitoral gratuito nas emissoras de rádio e televisão, e vai até 30 de setembro para os candidatos que concorrem no primeiro turno.

Prevista apenas para disputa de cargos executivos, ou seja, governador regional e presidente, o segundo turno será realizado em 30 de outubro, caso nenhum candidato alcance maioria absoluta dos votos válidos no primeiro escrutínio.

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