Ela rasga a lógica da vida, inverte a ordem natural das coisas e desmonta o que somos. Não se perde apenas alguém amado. Perde-se futuro, sonhos, planos, identidades. Perde-se uma parte de si.
Desde a morte trágica do meu filho, Giovanni Acioly, em 2021, eu vivo o luto. Já se passaram cinco anos. Cinco anos em que aprendi que o luto não é algo que se supera. É algo com que se aprende a viver. É um processo contínuo de adaptação, de silêncio, de memória e de ressignificação da vida.
No dia do acidente, antes mesmo de qualquer médico anunciar oficialmente sua morte, algo aconteceu comigo. Entrei numa espécie de anestesia psicológica. Não era frieza. Era sobrevivência.
Eu precisava estar inteiro. Precisava ser forte. Precisava cuidar da minha família.
Minhas irmãs, meu irmão, meus filhos Alzira, Janaina, Neto e PH e, sobretudo, minha esposa, Janaina Furtado, profundamente impactada por tudo aquilo. Alguém precisava sustentar aquele momento. E eu fiz o que um pai faz quando tudo desmorona: não fraquejei.
Lembro que disse a um jornalista, ainda no olho do furacão:
“Não tenho tempo para sofrer. Tenho uma família para cuidar. Talvez mais tarde eu encontre tempo até para chorar.”
Vieram, então, os dias mais longos da minha vida.
A notícia do acidente.
A noite interminável no Hospital Sansão Gomes.
A transferência de UTI aérea para Rio Branco.
Os primeiros diagnósticos médicos, cada vez mais desanimadores.
O anúncio da morte.
A decisão consciente e dolorosa de doar os órgãos do meu filho.
A volta para Tarauacá.
O velório.
O sepultamento.
E o dia seguinte.
Em todos esses momentos, estive firme. De pé. Em silêncio.
Como um pai que se recusa a cair porque sabe que outros dependem da sua força.
Dizem que o luto tem fases.
Sinceramente, não sei em qual delas estou.
Às vezes minha esposa e minha filha conversam comigo sobre isso. E eu juro que não sei explicar exatamente o que sinto. O que sei é que hoje choro mais do que chorei no dia da morte do Giovanni. Choro sozinho. No carro. No quarto. Em silêncio. Mas, é um choro verdadeiro.
Giovanni me faz muita falta.
Nossa relação ia além de pai e filho. Era companheirismo no sentido mais fiel da palavra. Amizade. Presença. Caminhada lado a lado. Quando ele partiu, algo em mim também partiu. Mas algo em mim também ficou mais profundo.
A saudade do Giovanni não me faz sofrer.
E isso costuma confundir as pessoas.
Muitos têm receio de falar dele comigo, achando que vou sofrer, que vou me abalar. Mas eu digo com tranquilidade: falar do meu filho me fortalece. Eu vivo das boas lembranças dele. Elas me alimentam, me movem, me dão energia.
O choro que vem hoje não é desespero.
É amor.
É a forma que encontrei de dizer ao Giovanni, onde quer que ele esteja, que o meu amor por ele não acabou e nunca vai acabar. Pelo contrário. Ele só cresce. Ele amadurece. Ele se transforma em presença permanente.
É assim que eu vivo o luto pelo meu filho.
Acredito que muitos pais e mães que perderam seus filhos sintam algo parecido. Não é ausência. É uma presença diferente.
Por isso, deixo aqui um apelo simples e urgente:
amem seus filhos intensamente.
Não espere amanhã para dizer “eu te amo, filho”.
Não adie o abraço.
Não economize palavras.
Diga hoje. Diga agora. Diga sempre.
O amor só faz bem.
E, por fim, digo com toda a verdade do meu coração:
por conta do luto, eu não sofro.
Eu luto.
Luto para seguir.
Luto para honrar a memória do meu filho.
Luto para transformar dor em amor".
(PAPAI ACCIOLY)
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