Foto: Sérgio Vale“Não sou mais a governadora sem votos”. A declaração de Mailza Assis, proferida em coletiva de imprensa após sua vitória, transparece um indisfarçável alívio. Tratava-se, afinal, de seu aguardado batismo nas urnas. O dia 25 de outubro de 2026 conferiu-lhe a legitimidade democrática que, até então, repousava sobre seus ombros por obra de decisões de terceiros — por mais que a própria governadora talvez prefira outra narrativa. Historicamente, as secretarias de Assistência Social e de Administração de Senador Guiomard, a suplência no Senado Federal e, por fim, a vice-governadoria lhe foram pavimentadas por conveniências e costuras políticas. O destino, curiosamente, sempre atuou como seu eleitor mais fiel.
O pleito de 2026, contudo, inaugurou um novo capítulo. A decisão de encabeçar a chapa partiu, de forma inédita, de sua estrita vontade. Contrariando o ceticismo de muitos e a oposição velada de tantos outros, a candidata insistiu no escrutínio público. Ansiava pela unção popular e, ironicamente para os incrédulos, obteve-a com louvor. Com 272.635 votos, correspondentes a incontestáveis 66,21% dos votos válidos, a outrora “governadora sem votos” diplomou-se com honras perante o eleitorado.
Durante seus pronunciamentos, tanto na coletiva quanto diante do Palácio Rio Branco, o tom adotado foi de uma calma professoral, como quem demonstra que a temperança costuma ser um antídoto letal contra a soberba. Aos que duvidavam de uma figura política cujo nome jamais havia liderado uma chapa nas urnas, Mailza ressaltou a convicção no processo que liderou: “Eu estava nas ruas todos os dias. Eu estava nos municípios. Eu conversava com as pessoas. Eu estava trabalhando. Eu estava dando tudo de mim. Eu tinha consciência do serviço que eu estava prestando e do que podia fazer pelo meu Estado.”
Em seu momento de celebração, não negligenciou a liturgia da gratidão. Agradeceu a cada cidadão e cidadã, reafirmando o compromisso de gerir o Estado com base na escuta ativa e no cuidado social — um aceno polido e indispensável a quem agora governa para toda a população acreana, independentemente de filiações ideológicas: “Cada voto representa a confiança de um acreano e de uma acreana que acreditam no nosso trabalho (…). Quero agradecer a todas as pessoas que caminharam conosco e reafirmar meu compromisso de governar cuidando das pessoas.”
No campo institucional, a governadora Mailza Assis Camelí exibiu salutar pragmatismo republicano ao reconhecer a vitória do presidente reeleito, Luiz Inácio Lula da Silva. Reforçou a urgência de construir pontes com o Governo Federal, visando a consequências práticas e positivas para o Acre. “O momento da disputa, de escolher o nosso candidato, é nas eleições. Passando isso, é governar. Buscarei apoio, sim, com certeza. Nós precisamos do Governo Federal para desenvolver o Acre”, alertou, lembrando aos mais exaltados que a matemática do desenvolvimento estadual não fecha sem os repasses de Brasília.
É justamente nessa articulação que residirá seu maior desafio prático: manter uma distância profilática de certas lideranças locais que, em um lapso de excessivo otimismo, já se autoproclamavam “embaixadores da Amazônia” no Planalto, fiando-se em projeções eleitorais de grupos adversários ao governo federal que não se concretizaram. Até o presente momento, a chefe do Executivo tem demonstrado o equilíbrio exigido pelo cargo. Seria um equívoco retumbante permitir-se contaminar pela polarização extremada que, por vezes, ainda tenta sequestrar o debate no Congresso Nacional.
Impedida constitucionalmente de pleitear um novo mandato em 2030, Mailza possui a rara oportunidade de surpreender, realizando uma gestão de fato inovadora. O verdadeiro exercício de diplomacia será ostentar a roupagem de um governo “de continuidade” — conforme prometido no palanque — sem, contudo, abrir mão de imprimir sua própria identidade. Ela precisará deixar essa premissa cristalina para figuras de seu círculo mais íntimo, o que, convenhamos, exigirá mais do que apenas sorrisos cordiais. Não será uma travessia isenta de atritos. Todavia, para quem acaba de derrotar a presunção alheia com tamanha serenidade, 272.635 votos formam um excelente escudo para amparar as medidas internas necessárias. O poder possui suas idiossincrasias, e uma líder plenamente legitimada pelas urnas detém o direito inconteste de exercê-lo. Ao que tudo indica, a governadora já assimilou a lição — para o alívio de uns e o velado desconforto de outros.
(ac24horas)