Flávio Bolsonaro fugiu para Miami e a direita agradeceu


A vitória de Lula foi inédita, histórica e espetacular. A derrota de Flávio foi inédita, histórica e patética.

O petista conseguiu seu quarto mandato e sua eleição virou um símbolo internacional de enfrentamento ao neofascismo. A campanha de Lula apontou caminhos para o enfrentamento à extrema direita no resto do mundo.

O golpista, sem mandato e imunidade, fugiu para os EUA para escapar dos muitos anos de cadeia que inevitavelmente encararia. Mesmo com o apoio maciço das elites, da Meta, do Tribunal Superior Eleitoral, do mercado financeiro e de parte importante da grande mídia, Flávio Bolsonaro tomou uma virada acachapante.

Com a dignidade e o brio de um homem criado por Jair Bolsonaro, o 01 arrumou as malas, juntou a família e fugiu do país da maneira mais vergonhosa possível. Nem o apoio de quase metade do eleitorado brasileiro e da maioria do Congresso fez esse homenzinho ficar no país para defender seus eleitores e enfrentar seus problemas de frente. Tal qual seu irmão, fugiu como um rato. Esse talvez tenha sido o maior ato de covardia que já se viu de um político na história da política brasileira.

Graças à ajuda clandestina dos governos de Javier Milei e Donald Trump, conseguiu despistar a polícia e a imprensa e se mandou para Miami. O voo foi a bordo de um jatinho cuja empresa proprietária é investigada por corrupção e lavagem de dinheiro em um caso envolvendo a irmã de Milei. Nada poderia ser mais simbólico.

O teatro golpista em Miami que nem o PL comprou

Mas o ridículo só estava começando. A patacoada ficaria ainda muito pior. Ao pisar em solo americano, Flávio se juntou à dupla dinâmica de herdeiros do golpismo, Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro, que também estão enrolados com a justiça brasileira. Os três patetas então publicaram um panfleto golpista disfarçado de carta ao povo brasileiro em que Flávio se autoproclamava o “presidente eleito” do Brasil.

O trio publicou três versões diferentes e, em uma delas, colocou um brasão antigo da República, com o nome Estados Unidos do Brazil. Tamanho viralatismo não foi suficiente para os patriotas. Uma das mudanças de versões foi feita para contemplar uma ordem vinda do governo americano: retiraram da carta os trechos em que se apresentava como o “verdadeiro presidente eleito".

Segundo assessores do Departamento de Estado dos Estados Unidos, isso criaria problemas para as relações diplomáticas com o Brasil e com seu verdadeiro presidente eleito. Ou seja, os EUA estão ajudando o pateta, mas não embarcaram totalmente na fantasia do nosso Napoleão de hospício.

Além dos quase 60 milhões de eleitores, Flávio abandonou também o seu grupo político, que ficou bastante incomodado. O presidente do PL Valdemar da Costa Neto deixou claro que não gostou da fuga, assim como Rogério Marinho, que é líder da oposição e foi coordenador da campanha de Flávio.

Enquanto o fujão gritava aos cantos do mundo ser vítima de uma fraude eleitoral, Valdemar e Marinho seguem afirmando que as eleições foram limpas e o resultado justo.

O PL acabou de eleger a maior bancada dos últimos 40 anos na Câmara, além de ter eleito uma maioria de senadores e uma penca de governadores. Apesar da derrota de Flávio, o partido obteve um sucesso estrondoso nas urnas. Seria uma completa insensatez endossar a loucura de um candidato que só inventou essa história para fugir do país e da cadeia.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o principal aliado da família Bolsonaro, não só reconheceu a legitimidade da vitória de Lula, como já se apresentou como um presidenciável. Em um vídeo em que se dirige ao povo brasileiro, o governador repetiu seis vezes que “a eleição já passou”. Nem esperou o defunto esfriar e já sentou no trono de presidenciável do bolsonarismo.

O último fiapo de apoio nos EUA

Trump recebeu o ladrão fugitivo na Casa Branca, mas não indicou quais serão os seus próximos passos. A posição dos EUA está aberta e o presidente americano é imprevisível. O óbvio e pragmático seria chutar a bunda dessa família de losers, já que ela está enfraquecida até mesmo dentro do seu grupo político.

O fato é que a lisura das eleições brasileiras foram atestadas por observadores internacionais, pelo partido de Flávio, pelo bolsonarista que preside o TSE e por quase todos os governos do mundo. Até mesmo a embaixada americana classificou a vitória de Lula como "definitiva”.

Continuar endossando a tese de fraude eleitoral, quando o mundo inteiro e os próprios políticos bolsonaristas não a reconhecem, seria um custo alto para Trump. 

Lula não é Maduro e o Brasil não é Venezuela.

O governo americano está mesmo disposto a mergulhar na aventura golpista de um rato fujão que está isolado interna e externamente? As declarações soltas e vazias de Trump, algumas com elogios embutidos a Lula, não indicam que ele abraçou totalmente a tese. O americano está com problemas sérios na política interna e está prestes a tomar uma lavada nas urnas nas eleições de meio de mandato.

Prever as ações de Trump é sempre arriscado, mas o meu palpite é de que ele manterá o assunto em banho-maria por um tempo, mas acabará reconhecendo a legitimidade da eleição de Lula. O governo americano representa hoje o único fiapo de apoio que resta à família Bolsonaro. E é um apoio bastante frágil e instável, que pode acabar a qualquer momento.

Enquanto Flávio brinca de presidente eleito nos EUA, Lula mantém o comando do país sob os holofotes do reconhecimento global e a direita bolsonarista se reorganiza em busca de novas lideranças. Não estamos diante da morte do bolsonarismo, mas certamente estamos presenciando o início do fim da influência da família Bolsonaro sobre a direita brasileira. Quase todo mundo já largou a mão dessa família de degenerados morais. Só falta o Trump.

Fraude nas eleições

No segundo turno das eleições de 2022, o Ministério da Justiça e a Polícia Rodoviária Federal do governo Jair Bolsonaro agiram em conjunto para tentar impedir que eleitores de Lula fossem às urnas. Espalharam uma série de blitz e bloqueios nas cidades em que o petista teve votação expressiva no primeiro turno. 

Não adiantou.

As forças golpistas voltaram a entrar em cena no segundo turno desta última eleição. Prefeitos bolsonaristas de várias cidades em que Lula teria mais votos promoveram um boicote na circulação de ônibus.

Em Salvador e São Paulo, por exemplo, grande parte das frotas ficou parada, enquanto eleitores esperavam no ponto para poder votar. A capital baiana foi a que mais deu votos para Lula, enquanto a paulista foi a terceira. O boicote se repetiu em cidades de estados onde há muitos votos lulistas como Piauí, Pernambuco, Alagoas, Rio de Janeiro, Paraíba e Pará. Mas, mais uma vez, o golpismo tomou uma surra ainda mais vigorosa nas urnas.

É urgente que se enquadre os golpistas com rigor. Todo esse tumulto não impediu a virada histórica de Lula, mas os responsáveis não podem passar impunes. Ou a democracia se blinda de atos golpistas, ou os seus limites continuarão a ser testados. Não é possível normalizar esse tipo de evento a cada quatro anos. Esta, sim, foi a única fraude destas eleições.

‘O que a Folha pensa?’

Os donos da Folha de S. Paulo não temem o ridículo. Eles passaram os últimos meses escrevendo editoriais críticos às candidaturas de Lula e Flávio, equalizando os problemas de cada uma como se fossem da mesma natureza.

Há um mês, um editorial dizia que o país estava “diante de uma escolha difícil entre um duro ajuste dos gastos públicos e o risco de agravamento do estresse financeiro". É como se estivéssemos em um mero dilema econômico. Assim como foi para os donos do Estadão em 2018, a escolha entre um democrata e um golpista foi muito difícil.

Flávio nunca foi chamado de golpista pela Folha durante essas eleições. Nem depois de ter feito uma promessa francamente golpista. O candidato prometeu anistiar seu pai e usar a força contra o STF se preciso fosse.

Agora, com a patacoada golpista que Flávio armou depois da eleição, a bonita da Folha apareceu indignada em um editorial intitulado “Golpismo nunca mais". Ora, ora, quer dizer que os donos do jornal descobriram agora que o golpista é golpista e pratica golpismo?

Informar ao eleitorado que estávamos diante de um candidato golpista era nada mais que uma obrigação jornalística, mas essa fadiga os donos da Folha preferiram evitar.

Bom, ninguém pode se dizer surpreso, já que este mesmo jornal já chamou a ditadura militar de “ditabranda".

(THE INTERCEPT)

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