Encontro Marcado: professora Elizanir do Carmo emociona ao contar trajetória de luta, educação e superação


Professora conhecida como Zulina falou sobre a infância no Bairro da Praia, os desafios da educação no campo, a violência doméstica que sofreu e a transformação da própria história em instrumento de apoio a outras mulheres e estudantes

A edição desta terça-feira, 18 de agosto, do podcast Encontro Marcado foi marcada por emoção, coragem e importantes reflexões sobre educação, família, violência contra a mulher e superação. Conduzido pela professora Janaína Furtado, o programa recebeu a professora Elizanir do Carmo, conhecida carinhosamente como Zulina, que abriu o coração para contar passagens de sua trajetória pessoal e profissional.

Logo no início da conversa, Janaína destacou que o encontro abordaria a trajetória de vida da convidada, a educação, a superação e a luta e resistência das mulheres.

Uma infância simples e marcada pelo trabalho

Ao recordar a infância no Bairro da Praia, em Tarauacá, Zulina falou sobre uma família de poucos recursos, mas fortemente ligada pelo trabalho, pela responsabilidade e pela determinação de sua mãe, Sebastiana, conhecida como Cilda.

Ainda criança, Zulina precisou ajudar a cuidar dos irmãos enquanto a mãe trabalhava como doméstica. Pela manhã, ficava responsável pelos menores; à tarde, estudava. Nos fins de semana, a família preparava e vendia lanches para complementar a renda. Mesmo diante das dificuldades, os estudos nunca foram abandonados.

A educação, segundo ela, sempre foi tratada pela mãe e pela avó como uma das maiores oportunidades que poderiam oferecer aos filhos. Zulina também recordou com carinho a Escola Rosaura Mourão da Rocha, onde estudou e onde começou a construir parte importante de sua formação.

O desejo de ser professora surgiu ainda na infância. Uma de suas grandes referências foi a professora Magda Guimarães, em quem Zulina se espelhava. Ainda menina, brincava de dar aulas aos irmãos e já dizia que queria seguir aquela profissão.

Estudar mesmo quando tentavam impedi-la

A caminhada até a formação profissional, porém, esteve longe de ser simples. Já adulta e casada, Zulina continuou tentando estudar, mesmo enfrentando resistência dentro do próprio relacionamento.

Durante a entrevista, revelou que, em determinados momentos, precisava estudar escondida porque o então marido não permitia que frequentasse a escola. Ela classificou aquele período como um dos mais difíceis de sua vida.

Apesar dos obstáculos, concluiu o Ensino Médio, seguiu na educação e posteriormente conquistou formação em Pedagogia e Letras.

Em 2005, iniciou uma longa trajetória profissional na zona rural. Passou por diferentes comunidades e enfrentou uma realidade completamente diferente daquela em que havia crescido. Trabalhou em localidades dos rios e seringais e construiu uma relação que ultrapassou o papel tradicional da professora dentro da sala de aula.

Educação no campo como compromisso com pessoas

Um dos pontos centrais da entrevista foi justamente a defesa da educação no campo.

Zulina contou que aprendeu a enxergar a escola rural não apenas como espaço para ensinar conteúdos, mas como uma verdadeira rede de apoio. Para ela, conhecer a realidade familiar, social e emocional do estudante é fundamental para compreender seu comportamento e suas necessidades.

Uma experiência com um aluno marcou profundamente sua forma de enxergar a profissão. Depois de perceber que o jovem enfrentava problemas pessoais graves, Zulina concluiu que o professor precisa também saber escutar.

“O professor tem que ser essa escuta.”

Ela destacou que muitos estudantes chegam à escola carregando problemas que não conseguem compartilhar nem mesmo dentro de casa e acabam encontrando no professor uma pessoa em quem confiam.

No Pacujá, essa concepção ajudou a orientar projetos voltados à integração entre escola, família e comunidade. A equipe buscou melhorar a estrutura escolar e desenvolver atividades ligadas à realidade dos estudantes.

Hoje, Zulina exerce uma função de gestão e acompanha oito escolas da rede estadual, mantendo contato com comunidades como Tamandaré, Sumaré, União, Igarapé Apuanã, América, Minas e Pacujá.


Mães com filhos no colo também têm direito de estudar

A experiência pessoal de Zulina também influencia diretamente sua atuação junto às mulheres da zona rural.

Durante a conversa, ela contou que procura intervir quando encontra alunas impedidas pelos companheiros de frequentar a escola. Sua própria história faz com que insista para que essas mulheres não abandonem os estudos.

Em algumas escolas, mães chegam para estudar levando seus bebês. Segundo a professora, a própria comunidade escolar se organiza para ajudar a cuidar das crianças enquanto elas permanecem em sala.

Para Zulina, morar na zona rural não pode significar receber menos oportunidades. Ela defende que os estudantes do campo possam sonhar, concluir os estudos, participar de formaturas e enxergar perspectivas para além das dificuldades impostas pela distância e pelas condições de vida.

“Eu escolhi ser livre”

O momento mais delicado e emocionante do programa ocorreu quando a conversa chegou ao enfrentamento à violência contra a mulher.

Zulina revelou ter vivido cinco anos de violência doméstica durante seu primeiro casamento, sofrendo agressões físicas e psicológicas. Contou que chegou a ser agredida com a filha no colo e que, por medo, muitas vezes escondia da própria família o que estava acontecendo.

A situação chegou ao ponto em que precisou fugir de Tarauacá levando a filha para conseguir romper o relacionamento. Mesmo depois da separação, segundo seu relato, continuou sofrendo ameaças e agressões. Houve prisão do agressor e medida protetiva.

Foi durante esse relato que uma das frases mais fortes da entrevista surgiu:

“Eu escolhi ser livre.”

Sozinha com as duas filhas, Joana e Júlia, Zulina retomou a vida, continuou trabalhando e, aos poucos, conseguiu se reerguer.

Ela também relatou um episódio extremamente grave em que foi surpreendida pelo ex-companheiro armado com uma faca e conseguiu escapar entrando em uma residência. Ao recordar tudo o que viveu, resumiu sua caminhada afirmando que sofreu muito, mas não desistiu.

História transformada em apoio a outras mulheres

Hoje, a professora utiliza a própria experiência para conversar com jovens e mulheres, especialmente suas alunas.

Durante o programa, Zulina chamou atenção para sinais que podem aparecer já no início de um relacionamento: controle sobre roupas, celular, amizades, contato com familiares e invasão da privacidade. Para ela, comportamentos dessa natureza devem servir de alerta.

A professora também fez um apelo para que mulheres que estejam vivendo situações de violência não tenham medo de procurar ajuda. Ela lembrou que o medo foi justamente uma das razões que a fizeram permanecer em silêncio durante parte do período em que era agredida.

“Não tenha medo de pedir ajuda. Peça ajuda.”

Zulina reforçou ainda que violência não deve ser confundida com demonstração de afeto e sintetizou sua visão em outra declaração marcante:

“Amor é cuidado.”

Segundo ela, toda mulher tem direito à liberdade, ao trabalho, à tranquilidade, ao bem-estar e à dignidade.

Uma nova vida e a família reconstruída

Depois de anos difíceis, Zulina também contou sobre a reconstrução da vida familiar. Falou com carinho do atual esposo, Rui, também professor, a quem descreveu como parceiro que acolheu não apenas ela, mas também suas filhas.

Segundo seu relato, Rui assumiu as meninas como filhas e construiu com elas uma relação de pai. Hoje, Zulina afirma viver uma realidade completamente diferente daquela experimentada no primeiro casamento.

Aos 41 anos, ela olha para a própria trajetória sem esconder as marcas do passado, mas também sem permitir que essas marcas definam seu presente.

“Não é fácil, mas ninguém disse que seria”

No encerramento, Zulina agradeceu a oportunidade de participar do Encontro Marcado e fez questão de mandar abraços aos professores, alunos, barqueiros, monitores e demais trabalhadores das comunidades rurais que acompanha.

A professora encerrou deixando uma frase que, de certa forma, resume toda a entrevista:

“Não é fácil, mas ninguém disse que seria. E seguimos.”

Janaína Furtado definiu a história da convidada como uma trajetória de dedicação, superação, amor e compromisso com as pessoas. A apresentadora ressaltou ainda a importância de utilizar espaços como o podcast para levar informação e promover o debate sobre temas como violência doméstica e direitos das mulheres.

A edição desta terça-feira do Encontro Marcado terminou, assim, muito além de uma entrevista sobre a carreira de uma professora. Foi o relato de uma mulher que conheceu dificuldades desde a infância, enfrentou perdas, violência e medo, mas encontrou na educação um caminho para reconstruir a própria vida e, principalmente, para ajudar outras pessoas a não desistirem das suas.

A história de Zulina mostra também a dimensão humana da educação no campo: uma escola que ensina, acolhe, escuta e cria oportunidades onde muitas vezes as dificuldades parecem maiores que os sonhos.



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