A manhã desta quinta-feira, 2 de julho, foi marcada por uma entrevista de alto nível no programa Bom Dia Tarauacá, apresentado pela radialista Rose Oliveira e transmitido simultaneamente pela Rádio Difusora AM, Aldeia FM, Nova Era FM e Web Rádio G.A.
A convidada foi a professora Rosana Cavalcante, engenheira agrônoma, pesquisadora, ex-reitora do Instituto Federal do Acre (IFAC) por quase 11 anos e uma das maiores referências da educação, da pesquisa científica e da agroecologia no Acre.
Durante aproximadamente uma hora de conversa, Rosana percorreu diversos temas estratégicos para o desenvolvimento do Estado, transformando a entrevista em uma verdadeira aula sobre educação pública, desenvolvimento regional, bioeconomia, agricultura familiar, pesquisa científica e valorização das mulheres do campo.
Uma trajetória construída junto com o IFAC
Logo no início da entrevista, Rosana relembrou sua formação acadêmica e profissional, destacando que sua maior credencial continua sendo "ser acreana".
Ela contou que ingressou no IFAC ainda na implantação da instituição e teve o privilégio de acompanhar praticamente toda a construção física da rede federal de ensino no Acre.
Segundo a professora, participou desde a terraplanagem de diversos campi até a inauguração das estruturas definitivas, incluindo salas de aula, laboratórios, bibliotecas, auditórios, quadras esportivas e refeitórios.
Em Tarauacá, recordou que encontrou inicialmente apenas oito servidores e acompanhou toda a implantação do campus, que hoje representa um dos principais centros de educação profissional e tecnológica da região.
Rosana ressaltou que o IFAC saiu de cerca de 200 servidores para aproximadamente mil profissionais entre docentes e técnicos administrativos, além de milhares de estudantes atendidos por programas como Pronatec, Mulheres Mil, cursos técnicos, graduações e pós-graduações.
Tarauacá recebeu investimentos históricos
Durante a conversa, a ex-reitora destacou o carinho especial que mantém pelo campus de Tarauacá.
Ela lembrou a inauguração da sede própria em 2016, ressaltando que praticamente toda a estrutura existente atualmente foi implantada durante sua gestão.
Um dos destaques apontados foi o refeitório, considerado referência nacional entre os institutos federais. Construído em ferro e vidro, o espaço recebeu reconhecimento internacional por seu projeto arquitetônico sustentável, que privilegia iluminação natural e eficiência energética.
Também destacou a moderna quadra poliesportiva, construída com recursos de aproximadamente R$ 3 milhões, considerada a única do IFAC com dimensões adequadas para receber competições esportivas oficiais em nível nacional.
Educação transforma realidades
Rosana defendeu que os Institutos Federais representam uma das maiores políticas públicas já implementadas no Brasil.
Segundo ela, um estudante pode ingressar aos 14 anos no ensino médio integrado, cursar formação técnica, graduação, pós-graduação e até mestrado dentro da mesma instituição, sem precisar deixar sua cidade.
Ela ressaltou que isso representa uma verdadeira revolução para municípios do interior, como Tarauacá, onde antes muitos jovens precisavam migrar para Rio Branco em busca de ensino superior.
Ao mesmo tempo, alertou que a manutenção dessa estrutura depende de investimentos permanentes.
A ex-reitora explicou que os Institutos Federais enfrentam limitações orçamentárias significativas, sendo obrigados a custear alimentação escolar, assistência estudantil, bolsas de pesquisa, extensão, manutenção predial e infraestrutura com um orçamento muito inferior ao destinado às universidades federais.
Para ela, fortalecer a educação exige compromisso permanente dos governos e também da classe política, por meio de leis, investimentos e ampliação dos recursos destinados ao Ministério da Educação.
Novo campus em Feijó abrirá oportunidades
Outro anúncio que chamou atenção durante a entrevista foi a confirmação da implantação do novo campus do IFAC em Feijó.
Rosana explicou que a Pedra Fundamental da unidade já foi lançada e que a construção contará com recursos garantidos pelo Governo Federal.
Segundo ela, a implantação da unidade deverá resultar futuramente na abertura de concursos públicos para contratação de professores e técnicos administrativos, ampliando ainda mais a presença do IFAC no interior acreano.
Bioeconomia: desenvolvimento mantendo a floresta em pé
Grande parte da entrevista foi dedicada ao tema da bioeconomia.
Rosana explicou o conceito de forma didática, afirmando que bioeconomia significa gerar riqueza a partir da biodiversidade amazônica, agregando valor aos produtos da floresta, da agricultura familiar e do extrativismo sem destruir os recursos naturais.
Ela destacou que cadeias produtivas como castanha, borracha, frutas, plantas medicinais, artesanato e agricultura familiar representam enormes oportunidades para municípios como Tarauacá.
Defendeu que o verdadeiro desenvolvimento precisa combinar preservação ambiental, justiça social e geração de renda para pequenos produtores.
Como exemplo, citou a comercialização da borracha produzida por cooperativas acreanas para a empresa internacional VEJA, fabricante de calçados sustentáveis vendidos em diversos países, demonstrando que produtos amazônicos podem alcançar mercados altamente valorizados quando organizados dentro dos princípios do comércio justo.
Projeto de R$ 3 milhões fortalece cadeias produtivas
Rosana também apresentou o projeto REVBIO, financiado pela Finep com aproximadamente R$ 3 milhões.
O objetivo é mapear cadeias produtivas em todas as regionais do Acre, identificando gargalos, oportunidades e formas de fortalecer cooperativas, associações e pequenos produtores.
Segundo ela, a iniciativa reúne IFAC, Universidade Federal do Acre, Embrapa, Sebrae, Federação das Indústrias, órgãos ambientais e diversas instituições públicas em uma grande rede colaborativa voltada ao fortalecimento da sociobioeconomia acreana.
O trabalho deverá produzir diagnósticos e propostas capazes de orientar futuras políticas públicas para o desenvolvimento sustentável do Estado.
Agricultura familiar precisa de assistência técnica
Ao comentar a realidade dos produtores rurais, Rosana afirmou que um dos maiores desafios ainda é a falta de assistência técnica permanente.
Ela observou que muitos agricultores possuem potencial produtivo, mas enfrentam dificuldades relacionadas ao acesso ao crédito, documentação fundiária, análise de solos, manejo adequado das culturas e orientação técnica especializada.
Na avaliação da pesquisadora, é necessário integrar IFAC, Embrapa, secretarias estaduais e municipais, universidades e demais instituições para oferecer apoio contínuo ao pequeno produtor, transformando conhecimento científico em melhoria concreta da produção agrícola.
Mulheres são protagonistas da produção de alimentos
Outro momento marcante ocorreu quando Rosana destacou o papel das mulheres na agricultura familiar.
Segundo a pesquisadora, aproximadamente metade da produção mundial de alimentos passa pelas mãos das mulheres, embora elas ainda enfrentem obstáculos para acessar crédito, assistência técnica, regularização fundiária e políticas públicas.
Ela lembrou que cerca de 80% dos projetos vinculados à alimentação escolar são liderados por mulheres, reforçando que o desenvolvimento sustentável precisa necessariamente reconhecer o protagonismo feminino no campo.
"Sementes de Resistência" dá voz às mulheres da Amazônia
Na parte final da entrevista, Rosana apresentou o documentário Sementes de Resistência, resultado de uma extensa pesquisa realizada junto às agricultoras da região da Transacreana.
Ela explicou que inicialmente pretendia realizar uma pesquisa científica tradicional, mas percebeu que as mulheres desejavam, acima de tudo, contar suas próprias histórias.
Durante seis meses ouviu relatos de vida antes mesmo de iniciar as gravações.
O resultado foi um documentário de 16 minutos que retrata mulheres agricultoras, guardiãs das sementes crioulas, da biodiversidade, das plantas medicinais e da segurança alimentar das famílias amazônicas.
Rosana destacou que o filme não romantiza a vida no campo. Ao contrário, apresenta histórias de superação, liderança, trabalho e resistência, valorizando mulheres que sustentam suas famílias e preservam conhecimentos tradicionais transmitidos entre gerações.
Ela lembrou ainda que 2026 foi declarado pela ONU como o Ano Internacional da Mulher Produtora Rural, reforçando a atualidade do tema abordado pelo documentário.
Convite à comunidade
Ao encerrar a entrevista, Rosana convidou estudantes, professores e a comunidade para participarem das exibições do documentário no campus do IFAC de Tarauacá e também incentivou o público a assistir gratuitamente ao filme disponível na internet.
A radialista Rose Oliveira definiu a conversa como "uma verdadeira aula", destacando que a entrevista percorreu temas como educação, agricultura familiar, preservação ambiental, bioeconomia e valorização das mulheres amazônicas.
Mais do que apresentar projetos, Rosana Cavalcante deixou uma mensagem clara: o futuro do Acre depende da união entre educação, ciência, inovação, preservação ambiental e fortalecimento da agricultura familiar, sempre tendo as pessoas como centro das políticas públicas.
FOTOS: Assessoria/Rosana





