Que a vida me perdoe, mas algumas pessoas nascem duas vezes. A primeira, quando chegam ao mundo. A segunda, quando descobrem que o amor é capaz de sustentá-las mesmo nos dias mais difíceis.
Você, minha filha Janaina Acioly, nasceu para mim há 35 anos. Mas, ao longo da vida, renasceu inúmeras vezes. Renasceu em cada desafio vencido, em cada lágrima enxugada, em cada decisão de continuar quando tudo parecia desabar. Hoje, além de ser uma filha extraordinária, é uma mãe dedicada do meu primeiro neto, uma mulher formada em Psicologia, Pedagogia e História, que fez do cuidado com as pessoas um verdadeiro propósito de vida.
Nos últimos anos, caminhamos por estradas que jamais imaginávamos percorrer.
A vida nos impôs perdas que nenhuma família deseja conhecer. Você perdeu sua mãe. Perdeu o tio que tanto amava. Despediu-se de suas duas avós. E, por fim, enfrentamos juntos o golpe mais cruel que um coração pode suportar: a partida do seu irmão, Giovanni Acioly.
Nenhuma dessas ausências será preenchida. Há dores que não passam. Elas apenas aprendem a caminhar ao nosso lado.
A saudade continua fazendo visitas silenciosas. Às vezes chega de mansinho; outras, invade a alma sem pedir licença. Sei que, em muitos momentos, a depressão ainda ronda seus pensamentos como consequência de tantos abalos. E justamente por conhecer essa realidade é que decidi nunca deixar você caminhar sozinha.
Talvez Deus tenha permitido que permanecêssemos tão unidos porque sabia que um precisaria ser o apoio do outro.
Foi assim que tomamos uma decisão.
Decidimos transformar a dor em luta.
Transformar a luta em energia.
E transformar essa energia em cuidado.
Não apenas conosco, mas com todas as pessoas que amamos.
Nossa vida sempre foi pautada pelo cuidado com os nossos. Hoje, continuamos fazendo isso, mas entendemos que, para cuidar dos outros, também precisamos cuidar de nós.
Foi então que a corrida entrou em nossas vidas.
Não como uma competição.
Não como um desafio esportivo.
Mas como uma escolha de sobrevivência.
Acordamos cedo. Caminhamos. Corremos. Conversamos. Incentivamos um ao outro. Quando um desanima, o outro estende a mão. Quando o corpo reclama, a vontade de viver fala mais alto.
Cada quilômetro percorrido fortalece muito mais do que músculos. Fortalece a esperança. Organiza os pensamentos. Alivia a ansiedade. Faz o coração respirar melhor.
A atividade física está melhorando, pouco a pouco, nossa saúde física e mental.
Aos meus 60 anos, descubro que ainda há tempo para recomeçar.
E você, aos 35, me ensina diariamente que a coragem não é ausência de sofrimento; é a decisão de continuar apesar dele.
Quando corremos juntos, não vejo apenas minha filha.
Vejo minha companheira de caminhada.
Minha amiga.
Minha parceira de vida.
Vejo alguém que, muitas vezes sem perceber, também cuida de mim.
Enquanto muitos acreditam que chega um momento em que apenas os pais protegem os filhos, nós descobrimos que existe um tempo em que esse cuidado passa a ser mútuo. Hoje eu cuido de você. E você cuida de mim.
Somos uma dupla.
Uma dupla que aprendeu que as maiores vitórias da vida não aparecem nas fotografias nem nas redes sociais.
Elas acontecem no silêncio.
Na conversa durante uma caminhada.
No abraço depois de um dia difícil.
No café dividido antes do amanhecer.
Na mensagem perguntando se o outro já chegou em casa.
No simples "estou aqui".
Dizem que é nas adversidades que as pessoas revelam quem realmente são.
Se isso for verdade, tenho orgulho da mulher que você escolheu ser.
Mesmo ferida, você continua acolhendo pessoas.
Mesmo sofrendo, continua sorrindo.
Mesmo cansada, continua ajudando.
Nunca permitiu que a dor endurecesse o seu coração.
Nem eu.
Talvez esse seja o maior patrimônio que construímos.
Não são bens materiais.
Não são títulos.
Não são cargos.
Nossa maior riqueza sempre foi a família.
É a capacidade de amar.
É a serenidade diante das tempestades.
É a racionalidade para enfrentar os problemas.
É a espiritualidade que nos lembra que Deus continua escrevendo nossa história.
É a calma para lidar até com aqueles que, por alguma razão, tentam nos ferir.
Aprendemos que responder ao ódio com mais ódio apenas prolonga o sofrimento.
Escolhemos outro caminho.
O da paz.
O da paciência.
O da firmeza sem perder a ternura.
Porque a vida já foi dura demais conosco para permitirmos que ela nos transforme em pessoas amargas.
Preferimos continuar sendo pessoas simples.
Pessoas que encontram felicidade em um amanhecer.
Em uma corrida.
Em uma boa conversa.
Em um almoço em família.
Em um abraço.
Em um sorriso do meu neto.
Nas pequenas coisas que, no fim das contas, sempre foram as maiores.
Minha filha...
Tenho orgulho da mulher que você se tornou.
Tenho orgulho da mãe dedicada.
Da profissional competente.
Da filha presente.
Da amiga leal.
Da mulher que continua de pé mesmo depois de tantas tempestades.
Se existe uma linha de chegada que realmente importa, não é a de uma corrida.
É chegar ao final da vida sabendo que fizemos o possível para cuidar um do outro.
Que estivemos presentes.
Que não desistimos.
Que, quando o mundo tentou nos quebrar, escolhemos caminhar.
Depois correr.
E seguimos correndo.
Lado a lado.
Enquanto Deus permitir, quero continuar acordando cedo para ouvir seus passos ao meu lado.
Quero continuar dividindo quilômetros, conversas, silêncios e sonhos.
Porque, acima de qualquer conquista, medalha ou recorde, você continuará sendo uma das maiores bênçãos que Deus confiou às minhas mãos.
Obrigado por nunca desistir de viver.
Obrigado por cuidar de mim.
Obrigado por permitir que eu continue cuidando de você.
Que venham muitos amanheceres, muitas corridas e muitos quilômetros. Não para fugir da saudade, mas para honrar aqueles que partiram vivendo uma vida que os encheria de orgulho.
Com todo o amor, a admiração e a gratidão de um pai que encontrou na filha uma das mais belas razões para continuar acreditando que, mesmo depois das maiores dores, a vida ainda merece ser vivida.
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PARCERIA DE AMOS
