
Dona Maria Laurinda, madrinha Peregrina Gomes Serra, Mestre Irineu Serra e o garoto Crispim Serra, sobrinho do casal, em frente à casa que agora funciona como memorial | Crédito: Acervo Alto Santo
E essa condução feita por uma mulher é a cara da essência do Daime, que traz como matriarca a Nossa Senhora da Conceição, a Rainha da Floresta.
Visitar o Memorial do Alto Santo, sede da doutrina do Daime, em Rio Branco (AC) nunca foi, para mim, um gesto turístico. Foi um retorno. Estive ali em uma situação ao mesmo tempo inusitada e reveladora. O espaço estava fechado ao público após ocorrências peculiares, entre elas a medição não autorizada, para fins de replicação, de uma mesa feita pelo próprio Mestre Irineu Serra. Ainda assim, a Madrinha Peregrina permitiu que eu e um casal de irmãos do Daime entrássemos. Caminhar por aquela casinha em silêncio foi como atravessar uma fronteira invisível entre o passado e o presente.
A primeira sensação é de desproporção. A casa é pequena, modesta, de madeira. E, no entanto, ali viveu um homem de dimensão gigantesca na matéria e no espiritual. A simplicidade do espaço não empobrece a história, pelo contrário, a confirma. Uma humildade estrutural que parece condensar a própria essência da doutrina: firmeza e simplicidade.

Memorial está sendo reformado para receber novos peregrinos e interessados pela história do Daime | Crédito: Altino Machado/Divulgação
Em 16 de janeiro de 2026, foi publicado no Diário Oficial do Estado do Acre uma Lei Municipal sancionada em Rio Branco que declara o Centro de Iluminação Cristã Luz Universal Alto Santo como entidade de utilidade pública. O reconhecimento formaliza algo que, para quem pisa naquele chão, é evidente há décadas: trata-se de um núcleo fundante de uma espiritualidade amazônica do século 20. A medida fortalece juridicamente a instituição e amplia sua capacidade de firmar convênios e acessar instrumentos legais de preservação.
Mas o valor do Alto Santo não começa agora
Segundo o jornalista Altino Machado, membro da comunidade, o local corresponde ao sítio histórico onde Mestre Irineu se fixou definitivamente em 1945, consolidando “a base territorial, organizacional e doutrinária” do centro. Ele lembra que o conjunto já é reconhecido como Patrimônio Histórico e Cultural pelo Governo do Acre e pelo município de Rio Branco, além de integrar a Área de Proteção Ambiental Raimundo Irineu Serra, unidade de conservação criada para resguardar atributos ambientais, históricos, culturais e religiosos.
Estamos falando do ponto mais elevado de Rio Branco, a 184 metros acima do nível do mar. Uma geografia simbólica e concreta. Um território que reúne o memorial Raimundo Irineu Serra, a casa onde ele viveu por 26 anos até seu falecimento em 1971, a sede do Ciclu Alto Santo, a casa de feitio, o cemitério Palmeiral, a Capela do Túmulo, o Memorial Leôncio Gomes da Silva e a cacimba cavada pelo próprio Mestre em 1945, com três metros de profundidade, de onde ainda hoje jorra água potável em uma região onde isso é raro e a água costuma ser salobra.

Sapatos do mestre Irineu fazem parte do memorial. O tamanho do par chama a atenção, uma vez que ele tinha quase dois metros de altura | Crédito: Altino Machado/Divulgação
Altino enfatiza que o Centro começou em 1930, quando Mestre Irineu começou a reunir os primeiros seguidores na Vila Ivonete, deixando claro que a fundação espiritual antecede qualquer formalização cartorial. Conforme o jornalista, os hinos do Mestre e de seus discípulos fundamentais falam em “Centro Livre”, “Casa da Ciência”, “Casa do Saber”, “Casa da Rainha da Floresta”, mas não em igreja. “Ele não criou igrejas. Ele fundou um centro esotérico, tanto que até hoje somos proibidos, por Decreto de Serviço deixado pelo fundador, de convidar pessoas para participar de hinários ou de sessões de concentração”. Há, nisso, uma concepção original de organização religiosa que nasce da experiência e não do registro.
A casa em si é um testemunho material desse princípio. A construção em madeira, originalmente coberta de cavaco, depois telhas francesas de barro, é adaptada ao clima amazônico com ventilação cruzada, salão central para os trabalhos, dois quartos laterais, cozinha aos fundos. Segundo Altino, ali se consolidaram as concentrações e os hinários que deram forma institucional à irmandade iniciada ainda na década de 1930. O imóvel preserva objetos pessoais, instrumentos de trabalho como as serras usadas para beneficiar a madeira da casa, maracá, bastão, mobiliário feito pelo próprio Mestre, a caneca usada para tomar Daime, ferramentas de carpintaria e até a mala que trouxe quando voltou ao Maranhão após o casamento em 1956 com a Madrinha Peregrina Gomes Serra.
Não se trata apenas de arquitetura. É um conjunto indissociável de edificação e acervo que sustenta a autenticidade histórica do lugar.
‘Eu sou eu e o boi não lambe’
E se hoje esse patrimônio se mantém íntegro, segundo Altino, isso se deve de maneira decisiva à presença da Madrinha Peregrina. Ele afirma que “tudo isso que está acontecendo em benefício da memória, da preservação, da continuidade” deve-se à condução dela. Desde o falecimento do Mestre, foi ela quem assegurou a guarda dos documentos, a reorganização jurídica quando necessária e a permanência territorial da tradição.
E essa condução feita por uma mulher é a cara da essência do Daime, que traz como matriarca a Nossa Senhora da Conceição, a Rainha da Floresta. O que acontece diferente disso é uma deturpação da doutrina nesse mundo adoentado em relação às mulheres. Na visita que fiz à Madrinha Peregrina, ela parou de forma espontânea na minha frente e me disse olhando nos olhos: “Eu sou eu e o boi não lambe”. E completou: “E se lamber, eu corto a língua”. E foi através desse ditado popular no Norte e Nordeste do país, com um complemento original, que entendi mais um pouco essa figura simbólica. Esse dito significa algo como uma afirmação de sua trajetória e confiança de que o que é seu, ninguém tira. Ou como consta no hinário dela, intitulado A Bandeira: “Eu estou aqui/ Que meu Mestre me mandou/ Eu dizer para os meus irmãos/ Eu sou, eu sou, eu sou”.
Então, para mim, que vive a doutrina há quase uma década, esse reconhecimento público da importância da Madrinha Peregrina não é apenas um ato administrativo. É a confirmação de uma memória viva. O Alto Santo não é um museu congelado, é uma história viva e ativa. Cada banco de madeira, cada esteio substituído para preservar a estrutura e cada objeto guardado carrega não apenas passado, mas a promessa de continuidade.
Mecanismos de preservação
O Decreto Municipal que reconhece a utilidade pública da entidade cria condições práticas para que esse legado siga sendo ainda mais protegido. Em tempos de disputas narrativas, de mercantilizações e apropriações apressadas, a preservação do território original adquire peso político e cultural.
Há algo de profundamente coerente no fato de que o núcleo originário da doutrina permaneça no mesmo solo onde foi consolidado.

Quarto onde o mestre dormiu até o fim de sua vida; móveis seguem preservados, além da sua mala trazida do Maranhão quando foi para o Acre durante o Ciclo da Borracha | Crédito: Altino Machado/Divulgação
Ao sair da casa naquele dia que estive no Alto Santo, depois de observar de perto a mesa que alguém tentou medir sem autorização, pensei na ironia do gesto. Não se replica a força de uma tradição pela cópia de um móvel. O que se preserva ali não é forma externa, é algo muito maior, esotérico.
A pequena casa de madeira, apoiada agora sobre base reforçada para resistir ao tempo, abriga uma história que ultrapassa sua metragem. E talvez seja essa a imagem mais fiel do que o Alto Santo representa: um espaço simples que sustenta uma experiência espiritual de dimensão intercontinental, apesar de não haver filiais do Alto Santo e a expansão da doutrina ser um ponto sensível na comunidade.
O Alto Santo permanece como marco fundacional de uma tradição amazônica que dialoga com o catolicismo, com a floresta e a medicina tradicional indígena da ayahuasca e com a formação social brasileira. Um blend que gera debates sociais acalorados, mas que é uma realidade incontestável e de uma grandiosidade indiscutível para quem vive essa história de dentro.
Para mim, que esteve ali com as portas fechadas e, ainda assim, abertas por confiança, fica a certeza de que preservar não é simplesmente reproduzir o passado, é sustentar a gênese com responsabilidade no presente. E como dizemos no Daime: “É um primor de formosura”.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
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