O debate sobre a saúde pública em Tarauacá voltou ao centro das discussões após a professora e vereadora Janaina Furtado publicar um artigo que vem repercutindo entre profissionais da área, gestores públicos e a população em geral.
O texto não se limita à crítica. Ao contrário, propõe uma reflexão madura: reconhece os desafios estruturais do sistema, valoriza os profissionais que atuam na linha de frente e aponta caminhos que passam por planejamento, investimentos e união institucional.
Um sistema pressionado pelo crescimento da cidade
Tarauacá é hoje o terceiro município mais populoso do Acre e, como destaca a vereadora, o crescimento populacional aumentou significativamente a demanda por atendimento, especialmente no Hospital Dr. Sansão Gomes — patrimônio histórico e referência regional que já não comporta a realidade atual.
A sobrecarga do sistema hospitalar, a demora no atendimento e a limitação estrutural são pontos recorrentes nas reclamações da população.
Classificação de risco: necessária, mas não pode justificar demora excessiva
O artigo também aborda um tema pouco compreendido pela população: a classificação de risco, que organiza o atendimento por gravidade.
Janaina esclarece que o sistema existe para salvar vidas, priorizando casos mais urgentes. Porém, faz um alerta importante:
➡️ o protocolo não pode ser usado para justificar esperas intermináveis;
➡️ existem tempos previstos que precisam ser respeitados.
👩⚕️ Profissionais fazem o possível diante das limitações
Um dos pontos mais fortes do texto é o reconhecimento do esforço dos profissionais de saúde.
Médicos, enfermeiros, técnicos, pessoal de apoio, limpeza e motoristas são citados como responsáveis por manter o sistema funcionando, muitas vezes em condições precárias.
A vereadora relata situações extremas, como atendimentos realizados durante falta de energia, iluminados apenas pela luz de celulares — um retrato dramático da falta de estrutura.
Problemas estruturais não podem ser atribuídos a quem está na linha de frente
O artigo critica a tendência de responsabilizar servidores e gestores locais por problemas estruturais históricos.
Segundo ela, essa postura é injusta e não resolve o problema.
A solução exige:
✔ planejamento
✔ investimento
✔ parceria entre município, estado e bancada parlamentar
✔ ampliação da estrutura hospitalar
✔ fortalecimento da atenção básica
💰 Recursos destinados precisam sair do papel
Outro ponto sensível levantado é a existência de recursos já destinados à saúde que ainda não se concretizaram em melhorias reais.
A população, segundo a vereadora, tem o direito de cobrar.
🧩 Valorização profissional: PCCR é urgente
A parlamentar destaca como simbólica e urgente a necessidade do Plano de Cargos, Carreira e Remuneração (PCCR) para os servidores da saúde.
Ela ressalta que não é possível exigir qualidade sem valorização profissional.
🤝 Reconhecimento à gestão e necessidade de união
Janaina afirma perceber sensibilidade do prefeito Rodrigo Damasceno, da vice-prefeita Marilete Vitorino e do secretário de Saúde Romário Costa para enfrentar os desafios.
Sua defesa central:
saúde se faz com estrutura, mas também com gente valorizada.
📢 Um debate necessário para o futuro da saúde em Tarauacá
O artigo surge em um momento em que a saúde pública enfrenta pressão crescente em todo o país. Em Tarauacá, o texto contribui para elevar o nível do debate, chamando atenção para a necessidade de soluções estruturantes e não apenas medidas emergenciais.
Mais do que apontar problemas, a vereadora propõe responsabilidade compartilhada, reconhecimento humano e compromisso político com a dignidade no atendimento.
A seguir, o Blog do Accioly publica o artigo na íntegra.
📝 ARTIGO NA ÍNTEGRA
Saúde em Tarauacá: reconhecer desafios, valorizar quem trabalha e cobrar decisões
(texto original da autora)
A gente escuta muita reclamação do sistema de saúde de Tarauacá. E eu acredito, sim, que temos inúmeros desafios. Eles começam desde o atendimento nas unidades básicas de saúde e se tornam ainda mais urgentes quando falamos do nosso hospital.
O Hospital Dr. Sansão Gomes é um patrimônio do município de Tarauacá. É uma referência, é uma conquista, é um lugar onde milhares de pessoas já tiveram sua vida salva. Porém, está mais do que claro que hoje ele se tornou pequeno para a realidade atual, porque a nossa população cresceu muito nos últimos anos. E quando a população cresce, a demanda por atendimento cresce junto e, se não houver expansão, estrutura e planejamento, o sistema começa a ficar sobrecarregado.
E é importante dizer uma coisa com sinceridade: quem procura o hospital, geralmente procura com dor, com medo, com pressa, com angústia. E quem está com dor não quer esperar. Quer ser atendido rápido. Quer resolver. Quer ser acolhido.
Mas, existe também uma realidade que precisa ser explicada para o nosso povo: no hospital existe a classificação de risco. O atendimento é organizado por cores, como o vermelho e o verde, e isso não é feito por pessoas leigas. Essa avaliação deve ser feita por profissionais de saúde, com conhecimento técnico, seguindo critérios e embasamento legal — pelo menos é isso que a gente espera que seja.
É claro que, para quem está sofrendo, isso é difícil de compreender. E eu entendo. Mas é necessário que a população saiba que essa classificação não é para negar atendimento. Ela existe para salvar vidas, priorizando quem está em risco maior.
Agora, também é preciso dizer com clareza: a classificação de risco não pode ser usada como justificativa para espera interminável. Existe um tempo previsto para cada nível de atendimento, e esse tempo precisa ser cumprido. O que a gente tem visto, infelizmente, é que muitas pessoas estão ficando por horas na fila aguardando atendimento. E isso é grave, porque quem está com dor, quem está doente, não pode ser tratado com normalidade dentro de uma espera que ultrapassa o aceitável.
Mesmo diante de tantas dificuldades, o que a gente vê é que muitos profissionais estão oferecendo o seu máximo. Tem muita gente boa lá dentro: médicos, enfermeiros, técnicos, pessoal do apoio, recepção, limpeza, motoristas. São pessoas que fazem a saúde acontecer no dia a dia, muitas vezes em condições que não deveriam existir.
Claro, como em qualquer lugar, existem exceções. Às vezes, um ou dois acabam manchando a imagem de toda uma equipe. Mas seria injusto e desonesto usar essas exceções para desmerecer o esforço de quem realmente está segurando o sistema com coragem.
Eu mesma já presenciei médicos e enfermeiros tentando agilizar atendimento em situação de escuridão total, onde o que restava era a luz do celular. Isso não é normal. Isso não pode ser tratado como algo comum. Isso mostra o quanto falta estrutura, investimento e cuidado com a saúde pública.
Faltam leitos. Falta espaço. Falta equipamento. Falta, muitas vezes, o básico. E ainda assim, apesar de tudo, tantas vidas já foram salvas naquele hospital que é até difícil contabilizar. É ali que muitas famílias encontram esperança. É ali que muitas mães, pais, crianças e idosos já foram socorridos.
Por isso, não adianta jogar toda a responsabilidade no colo do diretor, dos coordenadores, e pior ainda, no colo dos servidores. Quem trabalha na ponta não pode ser tratado como culpado pelos problemas estruturais de um sistema inteiro. Isso é injusto. Isso é covardia. E não resolve.
A saúde de Tarauacá precisa ir além de discursos. Precisa ir além de decisão de grupo. Precisa de planejamento, investimento e união. Se governa com responsabilidade. E se melhora a saúde com parceria.
Tarauacá precisa do apoio do Governo do Estado, precisa de diálogo e também precisa da ajuda dos nossos parlamentares, deputados estaduais, deputados federais e senadores para que possamos buscar recursos, ampliar estrutura, fortalecer as unidades básicas, melhorar o hospital e garantir dignidade para quem precisa de atendimento.
Além disso, nós temos informações de muitos recursos que foram destinados, mas que ainda não saíram do papel. E a população torce e tem o direito de cobrar para que isso se torne realidade e que o hospital seja ampliado o mais rápido possível, tanto no prédio quanto no número de servidores.
A população tem direito de cobrar. E nós, que temos mandato, temos obrigação de fiscalizar, propor soluções e lutar por melhorias reais. Mas também temos o dever de reconhecer o esforço de quem está lá todos os dias fazendo o impossível com o pouco que tem.
E sempre que eu trato dessa pauta, eu fico reflexiva. No auge da minha juventude, eu sempre conversava com meu colega, o ex-vereador José Sidenir, um homem arrojado, que sempre me dizia: “a nossa saúde tem um valor inestimável.” Ele, com a experiência de vida, tinha total razão. E eu aprendi esse valor na prática, quando perdi pessoas amadas na batalha contra a doença.
E em 2026, por conta da minha aproximação com a pauta da fibromialgia e também por estar enfrentando alguns problemas de saúde, eu aprendi ainda mais o quanto é necessário o envolvimento e a intervenção dos parlamentares como colaboradores dessa pauta. Porque, muitas vezes, é no momento da dor que a gente compreende, de forma ainda mais profunda, o valor do cuidado, do acolhimento e da presença do poder público.
Já na rede municipal, eu pude presenciar no meu primeiro mandato, entre 2013 e 2016, avanços importantes. Saímos de uma realidade em que muitas unidades funcionavam em prédios alugados para a conquista de prédios próprios, durante o governo Rodrigo Damasceno. Isso não resolveu tudo e ninguém aqui está dizendo isso, mas foi um passo importante para atender melhor o povo e também reduzir despesas do município.
Além disso, naquele período, o governo municipal também realizou concurso público efetivo, garantindo estabilidade, autonomia financeira e valorização para muitos profissionais competentes da saúde de Tarauacá, que até hoje seguem servindo com compromisso a nossa população.
E é justamente por entender o tamanho dos desafios e por não aceitar que a população se acostume com o que não é normal, que eu pontuo algo essencial, simbólico e urgente: precisamos virar essa página.
Não é aceitável que os servidores da saúde de Tarauacá, o terceiro município mais populoso do Acre, ainda não tenham o seu PCCR. Não é justo exigir qualidade no atendimento, cobrar resultados e esperar que o sistema funcione, sem garantir aos profissionais o mínimo de valorização, segurança e reconhecimento.
E eu tenho percebido essa sensibilidade no prefeito Rodrigo Damasceno, na vice-prefeita Marilete Vitorino e, claro, no secretário Romário Costa.
Porque saúde se faz com estrutura, sim. Mas também se faz com gente. E gente valorizada trabalha melhor, permanece, se dedica e cuida com muito mais amor.
Janaina Furtado
Professora e Vereadora
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