Carnaval de Tarauacá: uma tradição que resiste e busca reencontrar seu povo


A maior festa popular do país, aos poucos, vai sendo resgatada em Tarauacá. Pelo segundo ano consecutivo, a Prefeitura promove o Carnaval popular com esse objetivo: devolver ao povo uma tradição que por décadas marcou a identidade cultural do município.

Estrutura não faltou. Som de qualidade, bandas, ornamentação, espaços organizados para bares e restaurantes, além de um esquema de segurança reforçado. Tentativas de atrair o público também não faltaram.

Em 2025, a festa aconteceu no coração histórico da cidade, na Avenida Coronel Juvêncio de Menezes. Em 2026, ganhou novo cenário: a Praça Alton Furtado. O prefeito Rodrigo Damasceno, a secretária de Cultura Ionara Machado e as equipes da Prefeitura estiveram presentes em todos os momentos do evento, que começou no sábado e se estendeu até a madrugada desta Quarta-feira de Cinzas.

Ainda assim, um fato chamou atenção: o público compareceu em número reduzido. E a pergunta ecoa nas ruas, nas redes sociais e nas rodas de conversa: por que uma cidade tão festeira, que já realizou alguns dos carnavais mais animados da região, hoje registra uma presença tímida?

Respostas não faltam — e variam conforme o ponto de vista.

A turma da politicagem aponta o dedo para o prefeito, dizendo que faltou convencimento popular. Outros afirmam que gestões passadas contribuíram para o enfraquecimento da tradição carnavalesca. Há quem invoque argumentos religiosos, vendo na diminuição da festa sinais contra a chamada “folia profana”. Alguns chegaram a culpar o rigor das exigências de segurança.

Ouvi também quem dissesse que, por ser no meio do mês, o bolso do povo estava vazio e que os preços de alimentos e bebidas dentro do evento não ajudaram.

Há, de fato, um conjunto de fatores.

A política pesa. O município ainda vive a polarização herdada da última eleição (Rodrigo x Néa), e isso influencia até a participação popular em eventos públicos.

O intervalo de anos sem carnaval fez com que muita gente se desacostumasse. Uma nova geração cresceu sem vivenciar a festa como tradição coletiva.

A questão econômica também conta. Carnaval popular precisa ser acessível. Quando os preços sobem, o povo se afasta.

O fator religioso é real. O crescimento das igrejas evangélicas e de outras denominações trouxe novas visões culturais, muitas delas contrárias à festa.

Mas talvez uma das mudanças mais profundas tenha vindo com a pandemia. Durante o período de isolamento, as pessoas reinventaram suas formas de lazer. Hoje, muitos preferem se reunir em quintais, chácaras, colônias e fazendas. Uma caixa de som, uma térmica com gelo, bebida, celular, internet, transporte por aplicativo e uma boa companhia já criam o ambiente da festa.

Outro ponto importante é a segurança. Com o surgimento de grupos ligados ao tráfico e o aumento do consumo de drogas, parte da população prefere ambientes menores e mais tranquilos.

Apesar das divergências de opinião, o Carnaval aconteceu. Compareceu quem quis, quem pôde e quem ainda acredita na força da festa popular.

Agora, como sempre acontece em Tarauacá, o povo segue atento ao próximo fato político, social ou cultural que movimente a cidade, porque aqui, entre uma cheia e outra, entre debates e celebrações, a vida continua pulsando.

E o Carnaval, mesmo reinventado, ainda resiste.

Raimundo Accioly
Professor e Editor do Blog do Accioly

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