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quinta-feira, 8 de abril de 2021

OS BANDEIRANTES DA AMAZÔNIA (MEMÓRIAS DO ACRE)



Lutando contra um dos meios mais hostis da Terra, enfrentando mosquitos, malária, hepatite e o clima inóspito, dormindo em redes, trabalhando 24 horas por dia para aproveitar os 
meses de seca, militares e civis estão rasgando na selva, entre o Território de Rondônia e o Estado do Acre, uma estrada de 60 metros de largura e 12 metros de pista que vai de Cuiabá (Mato Grosso) a Cruzeiro do Sul (Acre), na fronteira com o Peru, no total de 2.842 quilômetros sete vêzes a extensão da Rio-São Paulo. Via fundamental para a ocupação, o progresso e a defesa de uma região que representa dois terços do território nacional, essa rodovia é considerada um passo importante para a integração da Amazônia.

O desafio foi aceito pelo Exército e o combate está sendo vencido pelo 5.º Batalhão de Engenharia e Construção, sediado em Porto Velho (Rondônia). O Coronel Aloísio Werber comanda a unidade com otimismo e o moral da tropa não podia ser melhor. Todos sabem que a batalha será longa, mas não se deixam vencer pelo desânimo: "Nós estamos construindo para o futuro" - diz o coronel. Os primeiros frutos da luta, em ver o progresso que experimentou todo o Territorio de Rondônia após a chegada do batalhão a Porto Velho. Explica o comandante que, sob a responsabilidade de seus homens entre construir e conservar, estão 2.842 quilômetros de estradas, além dos 366 da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Essas rodovias, uma em continuação a outra, atravessam toda a área fronteiriça do Brasil com a Bolivia e o Peru, formando uma gigantesca serpente que começa em Cuiabá e alonga-se até o extremo de Cruzeiro do Sul.

São, ao todo, cinco rodovias: BR-364, de Porto Velho (Rondônia) a Cuiabá (Mato Grosso), com uma extensão de 1.521 km; BR-319, de Porto Velho a Abunã (ainda em Rondônia), com 214 km; BR-319, de Abună a Guajará-Mirim (Acre), 128 km; BR-236, de Abunã a Rio Branco (Acre), 287 km; e BR-236, de Rio Branco à fronteira Brasil-Peru, 820 km.

E o caminho não acabará aqui. Em Cruzeiro do Sul foi criado, recentemente, o 7.º Batalhão de Engenharia e Construção, com a missão de construir 500 quilómetros de estrada até Apu-calpa, no Peru. A ocupação, que não foi conse-guida ainda através da hidrovia, será tentada agora, com todas as possibilidades de sucesso, pela rodovia. Só por terra se pode travar um combate efetivo com a hostlidade da região e se poderá provar que a vida e a civilização são possíveis onde por enquanto existem apenas selva densa, mosquitos, feras e índios. E, para isso, a velha Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, com seus trilhos de bitola estreita e locomotiva Maria Fumaça, está obsoleta. A nova solução mostra, cada vez mais, ser a certa e a vitoriosa. O facão e o trator já abriram caminho no inferno verde, ao mesmo tempo em que, dos lados, descobre-se que a terra nada tem de infernal: é fértil. Está se revelando um trabalho produtivo plantar e colher na planicie amazônica.

O Cessna militar que transporta o repórter, pilotado pelo Sargento Avelino, aterrissa no leito de terra e cascalho da estrada, no local hamado Girau, entre Porto Velho e Abună. Os pilotos militares ou civis que operam na selva amazônica aprenderam a descer e decolar nos lugares mais incríveis: clareiras, praias que se formam no meio dos rios durante os meses de seca, garimpos. São chamados, pela coragem, piratas, e demonstram seu à vontade naquele trabaIho quando dizem: "A gente não aterrissa, chega ao lugar."

A certa distància das frentes de desmatação, arruamento e construção da estrada, na retaguarda, ficam as chamadas turmas de equipamento, com a função de suprir de material e assistência mecânica os tratores e viaturas utilizados no trabalho. Há atualmente um acampamento desses no Girau, com 136 homens. As oficinas trabalham duramente, para dar conta de todos os consertos, e no menor tempo possivel. É necessário pressa para abastecer a frente, onde as máquinas não podem parar: se não forem aproveitados ao máximo os meses de estio (seca), quando o inverno (a chuva) chegar será quase impossível prosseguir, em virtude do lamaçal.

Trabalha-se, por causa disso, 24 horas por dia durante quatro meses por ano. Apesar da dureza do trabalho, os soldados e civis acampados no Girau estão muito contentes, porque não precisarão mudar logo dali. 

"De Porto Velho até aqui, o equipamento já fez oito mudanças", informa o sargento. Estranho contentamento porque, além do trabalho, esses homens enfrentam a cada instante a hostilidade do meio. No quilômetro 154, houve dias de baixas de cinco, seis homens, que cal-ram com malária e foram retirados para Porto Velho. Os mosquitos são uma praga. O calor, insuportável. E, além de tudo, o isolamento da civilização é total. O Cabo Barbosa ilustra isso bem quando pergunta na sexta-feira, o resultado do Vasco e Flamengo do domingo anterior, no Maracanã. "Rádio de pilha, aqui é luxo", diz o cabo. "Cristo, se passou por aqui, foi voando." 

No que toca à natureza, porém, nem tudo é negativo. Para que se tenha uma idéia da riqueza dessa região que os brasileiros estão explorando agora, basta dizer que um especialista paranaense classificou ali, num levantamento ligeiro, 165 qualidades aproveitáveis de madeira. A variedade do solo principalmente da terra roxa, de grande fertilidade - é surpreendente, e oferece possibilidades de cultivo da quase totalidade dos cereais. Em alguns lugares, como em Rondônia, as as potencialidades econômicas são extraordinarias: borracha, castanha, madeira, couro, peles, poaia, óleos vegetais. Sem falar a cassiterita, uma mina fantástica: cada metro cúbico de terra pode fornecer 45 quilos do minerio, que no alto do rio Madeira Mamoré aflora à superficie.

O trecho da estrada entre o Girau e Abunã, passando por Mutum e Marmelo, ainda não está pronto. Assim, para chegar a Abunã; só de avião, ou pelo trem puxado pela Maria Fumaça, que não rende mais de 30 quilômetros por hora. o povoado, fronteira com a Bolivia - que fica do outro lado do rio Madeira - há um pequeno aeroporto de terra batida, entre o rio e os trilhos da Madeira-Mamoré. Mais adiante, um cemitério de cruzes abandonadas e mato crescido. 

UM hotel paupérrimo, o único naquelas paragens. O almoço servido dá uma idéia das dificuldades que enfrenta este posto avançado do Exército. A água, as verduras, os sucos todos e os líquidos recebem tratamento especial, na hora, sendo-lhes adicionadas gotas de Hidrosteril. Não existe água potável. Na mesa ainda podem ser encontrados comprimidos contra micose, medicamentos para o fígado, drágeas contra malária e vitaminas. Naquele dia, a temperatura estava baixa: 30º. Um primeiro-tenente, o médico João Aberides Ferreira Filho, diz que os grandes males dali são a malária e a hepatite, doenças transmitidas por insetos. "No frio, o perigo diminui. O borrachudo e o pium se escondem, porque, para a desova, preferem o calor. O diabo é que aqui nunca deixa de fazer calor." Ele é chamado para atender um acidentado, vitima do capotamento de uma camioneta. O mais impressionante no batalhão é trabalhar ininterruptamente 24 horas por dia e ainda encontrar tempo para prestar assistência médica, sanitaria e dentária aos moradores daqueles lugares que não passam de simples povoações. Ali, os militares são ao mesmo tempo operários, médicos, dentistas, professores.

Depois da chegada da companhia, o estado sanitário da população de Abună melhorou sensivelmente, bem como o aspecto geral do povoado de Rio Branco, capital do Acre, já é possível viajar de camioneta, para o Norte, por 20 quilômetros no leito de uma estrada de 60 metros de largura, com 12 de pista de rolamento. Depois, pelo picadão aberto na mata, com apenas 60 centímetros de largura, penetra-se uns quatro quilômetros na selva, rumo a Sena-Madureira.

Do carro podem-se ver os pequenos e irrequietos macacos sagüis que saltam na frente e dos lados durante todo o trajeto. Um ex-seringueiro, Benedito Amaro de Alencar, de 56 anos, e sua mulher, aparentando 30, que iam a pé rumo à selva, ganham carona. Nordestino, baixo, magro, Benedito bendiz a estrada. Já não precisa pagar 50% do resultado do seu trabalho ao transportador de suas mercadorias até a cidade. O acampamento que assinala a proximidade das obras consta de três barracas de 3 por 5 metros, cada uma com cinco redes. A turma  alimentada com arroz, feijão-cavalo, farinha-d'água e macacheira (aipim) ensopada com carne-seca. São 20 homens levando uma vida inteiramente rude e cuidando do rancho para 20 que estão na frente da desmatação e mais oito da topografia. No picadão faz um calor de 38 graus e os mosquitos incumodam terrivelmente. Os duzentos homens estão espalhados, no intrincado da selva, por uma área de seis quilómetros quadrados. Passam meses na mata e dormem em tapiris, sem qualquer proteção contra mosquitos, cobras e onças. Os tapiris são palhoças de 5 por 7 metros, cobertas de palha de palmeira e sustentadas por estacas que terminam em forquilhas, onda são amarradas com cipó. Os homens são os primeiros a cortar as árvores, deixando-as numa altura de 60 a 70 centímetros. Atrás vêm os tratores alargando o picadão para a estrada e completando, para os lados, a derrubada das árvores maiores. À medida em que se avança no estreito corredor, o barulho das máquinas val sumindo e cedendo lugar aos verdadeiros ruidos da selva.

Naquela área, o indice de malária tem sido pequeno, em comparação com lugares como Mutum, Girau, Abună e, principalmente, Marmelo. "Em Marmelo", comenta um cabo, "se você der uma banana e um aralen (comprimido antimalária) a um macaco, ele prefere o ralen". Nada abate o moral desses homens - nem a doença, nem os mosquitos, nem o calor de 40 graus. Ao contrário, eles encontram, sempre, uma maneira de ironizar a rudeza do ambiente e fazer piadas sobre a própria sorte.

O troço aqui é pra galo - diz um. Outro corrige:
- Não, é pra leão.
De terçado na mão, o Sargento Brandão sorri:
- Eta vidão de bicho!

CONSTRUÇÃO DA BR 364
5° BEC
Um grupo de homens valentes abre na selva uma estrada (BR 364) de 3 mil quilômetros.
Matéria divulgada pela Revista Manchete, no ano 1969 (Edição 905)
Reportagem de JOÃO ANTONIO
Fotos de JUVENIL DE SOUZA

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