Almejava louvar solenemente
A luz da centenária juventude,
Entoar um cântico reverente,
Exaltar tua beleza ainda rude,
Celebrar teu passado e teu presente
E vibrar com teu viço e virtude.
Falar de tua idílica natureza,
Dos teus rios de águas tão barrentas,
Dos teus frutos fartos em cada mesa,
Que a teus filhos com ternura alimentas,
Das tardes douradas de beleza
E das noites de chuvas violentas.
Gostaria de cantar o teu progresso,
Onde o sangue não manchasse os jornais,
Celebrar deslumbrado o justo acesso,
Sem usura e sem tratos desiguais,
Falar como em sonho do sucesso
Dos sórdidos políticos imorais.
Pretendia celebrar tua ternura,
E teu profundo amor pela moral,
O degredo da consciência impura
E o fim da paixão pelo banal,
Sepultar o rancor e a loucura
Que maculam o cuidado fraternal.
Nesta data festiva pretendia
Ver a razão luzindo em teu caminho,
Escutar uma doce melodia
Dizendo que é findo o Mesquinho,
Que em tua calorosa companhia,
Nenhum dos teus filhos está sozinho.
Ansiava contar com alegria
Aos teus filhos que repousam em teu leito
Que festejas a flor da harmonia,
Que seu sonho de vida é satisfeito
Que o júbilo espalhado neste dia
Servirá como antídoto ao imperfeito.
Desejava consolar os teus soldados,
Caçadores leais do negro ouro,
Aos que foram tão jovens sepultados,
Que deixaram de ver o sol vindouro,
Aos que embora tão desafortunados,
Fizeram de ti o seu tesouro.
Mas tenho que cantar tua feiura,
Lamentar teu aspecto desprezível,
Ainda caminhas em noite escura
Perdida em treva inconcebível,
Ainda teus filhos em desventura
Não provam teu fruto aprazível.
Inda jaz presa ao sonho tua vitória
E a teus filhos deleita a violência,
Inda a dor atormenta tua memória
Há os que fazem guerra à prudência,
Há os que lançam escárnio em tua glória
Que violentam tua pura inocência.
Aos teus vivos e aos teus mortos, sem fingir,
Falarei que seu sonho é semelhante
Às imagens que brincam de iludir,
No deserto, o sedento caminhante,
Ainda receamos teu porvir
Ao saber teu presente angustiante.
Precisamos contar aos teus heróis
Que seu ouro tem negro tom de morte
E mostrar-lhes teus pálidos arrebóis,
Lamentar em seus túmulos tua sorte
Neste instante silenciar a voz
Como alguém que recebe duro corte.
O gélido pão da hipocrisia
Ainda é alimento de tua gente,
Vê-se ainda soberba e covardia
E a Deus tu te mostras indiferente,
Há os que em insana rebeldia
Comem o fruto da morte docemente.
José Marques (Teólogo, filósofo, educador e escritor tarauacaense)