Calor, seca, fumaça, energia elétrica mais cara. Entenda como a destruição da floresta pode chegar no seu cotidiano e porque isso também importa na hora de escolher seus candidatos.
Se a conta de luz aumentou, o calor parece cada vez mais difícil de suportar ou o preço dos alimentos pesa mais no orçamento, é provável que você não pense na Amazônia como parte dessa história. Mas, para quem vive na região, essas mudanças já deixaram de ser uma questão distante e já interferem diretamente no orçamento e no cotidiano da população. Estudos indicam que 32% dos moradores locais (e 42% nas comunidades tradicionais) já sentem impactos diretos na sua rotina. As consequências mais sentidas na pele são justamente aquelas que fazem parte da vida cotidiana: o encarecimento da conta de luz (83,4%), o calor sufocante (82,4%), a poluição do ar causada pela fumaça dos incêndios (75%), a frequência de desastres ambientais (74,4%) e a alta no preço dos alimentos (73%).
Mas o que acontece na região amazônica não afeta apenas a população local e chega a todo o Brasil, já que a floresta participa da regulação do clima e do ciclo da chuva no país, e vai ter consequências no orçamento doméstico, na produção de comida, no acesso à água e na energia que chega aos lares brasileiros. E, em um ano de eleições, é importante entendermos essas relações, porque proteger florestas depende também de leis, fiscalização, orçamento, prevenção e das decisões de quem ocupa cargos públicos.
Por que a Amazônia funciona como regulador do clima do país inteiro?
A relação começa pelo papel que a Amazônia desempenha no funcionamento do clima. Ela funciona como uma espécie de bomba de chuva para o Brasil inteiro, a vegetação evapora umidade e também puxa a umidade do oceano, parte disso vira nuvem, e correntes de vento levam os chamados “rios voadores” (e consequentemente chuva) para o Centro-Oeste, o Sudeste e o Sul, inclusive para os rios que abastecem as hidrelétricas de onde vem boa parte da nossa energia elétrica, e para as lavouras que colocam comida na mesa de todo o país.
Um estudo publicado na Nature Communications em 2025 calculou que, entre 1985 e 2020, o desmatamento respondeu por aproximadamente 74% da redução das chuvas na estação seca na Amazônia Legal e por 16,5% do aumento da temperatura máxima observado no período. A perda de floresta altera o ciclo da água e torna a região mais quente, seca e vulnerável ao fogo.
Ao também comprometer os “rios voadores”, a destruição da floresta acaba afetando as chuvas que do restante do país, que perdem força, e quem sente o efeito não é só quem mora perto do desmatamento.
Além de influenciar o clima do país, o desmatamento também colabora com as mudanças climáticas globais. A derrubada de árvores no Brasil responde por cerca de 42% das emissões de gases do efeito estufa do país, o que é bem diferente da maioria dos outros países, onde a queima de combustíveis fósseis (como carvão, óleo e gasolina) é a grande vilã.

O que isso custa no preço da comida?
O mesmo mecanismo afeta a produção de alimentos, o que, dentre outros fatores, também vai influenciar no seu preço final.
Grande parte da agricultura brasileira depende de um regime de chuvas regular para funcionar bem, e quando esse regime é afetado por menos floresta e mais seca, as safras no Centro-Oeste, Sudeste e Sul podem ser prejudicadas. E o efeito chega ao preço no mercado de qualquer cidade, não só onde a floresta foi derrubada.
Como o desmatamento afeta a conta de luz?
A mesma lógica vale para a energia. Menos floresta pode significar menos chuva, menos chuva pode significar menos água chegando aos rios e aos reservatórios das hidrelétricas, e assim, para compensar, exige gerar energia por termelétricas, que é uma fonte mais cara e mais poluente. Um estudo da Rede de Pesquisa em Produtividade & Sustentabilidade (Rede PP&S) calculou que, se o Brasil tivesse evitado o desmatamento da Amazônia desde 1985, o consumidor brasileiro teria economizado até R$ 5,7 bilhões por ano na conta de energia. E esse custo é repassado para a conta dos brasileiros.
Ou seja, proteger a floresta também é uma forma de proteger uma infraestrutura que o país utiliza para produzir energia.
Quem paga a conta quando as proteções caem?
À medida que o desmatamento e o aquecimento global alteram o regime de chuvas e a temperatura da região amazônica, eventos climáticos extremos tornam-se mais intensos e frequentes. Um levantamento do IPAM mostrou que 1,8 milhão de pessoas são afetadas anualmente por desastres na Amazônia, gerando prejuízos de R$ 3,44 bilhões por ano, Povos indígenas e comunidades tradicionais representam 75% da população afetada.
A consequência é direta sobre a agricultura, a pecuária, a saúde e a infraestrutura. De 2000 a 2022, a frequência de queimadas aumentou dez vezes, secas e ondas de calor triplicaram, e por longos períodos dificultam muito a navegabilidade de rios (importante meio de transporte local), gerando desabastecimento, alta nos preços e escassez de água potável.
Desmatar traz desenvolvimento?
Ao contrário do discurso de que a derrubada florestal gera progresso, as 50 cidades que mais desmatam têm rendimento mensal 27% inferior à média dos municípios brasileiros. O modelo baseado na destruição concentra lucros nas mãos de poucos, mas deixa a maior parte da população local presa à pobreza.
E os resultados sociais dos municípios onde mais se desmata também ajudam a questionar essa ideia. O Índice de Progresso Social Brasil 2026 mostra que São Félix do Xingu, no Pará, município que liderou o desmatamento da Amazônia nos últimos três anos, aparece na 5.558ª posição entre os 5.570 municípios brasileiros. Altamira-PA, segundo município que mais desmatou, está na 5.454ª posição; Apuí-AM, terceira em desmatamento, está na 5.518ª.
Os dados não significam que cada árvore derrubada cause diretamente uma queda no índice, mas mostram que desmatamento e melhoria da qualidade de vida não caminham necessariamente juntos. A atividade econômica que retira riqueza da floresta não garante, por si só, que essa riqueza se transforme em saúde, educação, segurança ou bem-estar para quem vive no território.
Levantamento da Folha de São Paulo aponta que municípios que mais desmatam têm renda 27% abaixo da médiaOnde entram os políticos e as eleições?
Calor fora do normal, fumaça no ar, conta de luz e comida mais cara no mercado, são coisas que muita gente já sentiu na pele, e não acontecem por acaso. Eles têm causa, e essa causa também passa por decisões políticas que definem o quanto o país está preparado para enfrentar secas, queimadas e seus efeitos no dia a dia. Quando essa proteção natural é destruída, quem sente o efeito não é só quem mora perto da floresta.
Para evitar desmatamento, incêndios criminosos e ocupações irregulares, o país precisa de monitoramento, fiscalização, investigação, punição, orçamento e regras que funcionem. Deputados, senadores e governos participam dessas decisões, eles votam leis, definem orçamentos, criam ou alteram regras, aprovam políticas públicas, decidem prioridades. Isso significa que, em uma eleição, escolher uma candidatura também é escolher quem terá poder para influenciar essas decisões.
A proposta da campanha #VotaQueVale do Greenpeace Brasil é justamente conscientizar sobre como as decisões de quem está lá em Brasília impactam nossa vida cotidiana. São essas mesmas pessoas que decidem como o país enfrenta seus problemas.
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O que observar nas candidaturas das eleições 2026?
Antes de escolher seu voto, vale olhar para além das promessas. Pergunte: O candidato ou candidata defende fortalecer ou enfraquecer a fiscalização ambiental?
Apoia recursos para prevenção e combate às queimadas?
Como se posiciona diante de propostas que alteram regras de proteção ambiental?
Como já votou quando teve mandato?
Quais políticas públicas diz que pretende defender?
Quem serão seus aliados para colocar essas propostas em prática?
