Na comunidade Santa Rita, professora Cleia Barroso transforma natureza, produção de alimentos e realidade local em instrumentos de alfabetização e aprendizagem
Em uma comunidade rural do Rio Liberdade, distante da área urbana de Tarauacá, uma experiência educacional mostra como a escola pode utilizar a própria realidade dos estudantes para ensinar, produzir alimentos e fortalecer a relação com as famílias.
Na Escola Aurelino Pereira de Brito-VII, localizada na comunidade Santa Rita, no Baixo Rio Liberdade, a professora Cleia Barroso desenvolve o projeto “Transformar é Preciso: do Palmar para a Mesa”, uma iniciativa que coloca a autossustentabilidade no centro do processo de alfabetização e aprendizagem.
A proposta parte de um princípio simples e importante: aproveitar os recursos disponíveis na própria comunidade para produzir alimentos, desenvolver conhecimentos e ensinar às crianças valores como responsabilidade, preservação ambiental, cooperação e autonomia.
Uma professora, uma turma multisseriada e muitos desafios
Cleia Barroso é pedagoga, especialista em Inclusão Escolar e possui pós-graduação em Psicopedagogia, Neuropsicopedagogia, Gestão Escolar e Inclusão.
Na Escola Aurelino Pereira de Brito-VII, ela é a única professora responsável por uma turma multisseriada com 20 estudantes, do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental. A comunidade Santa Rita reúne aproximadamente 40 famílias.
Quando chegou ao local, Cleia encontrou uma pequena escola de madeira, construída sobre palafitas e cercada pelo mato. A estrutura limitada, entretanto, não foi o único desafio.
Nos primeiros anos, uma das maiores dificuldades foi aproximar as famílias da escola. Por isso, antes mesmo de ampliar os projetos pedagógicos, a professora trabalhou para estabelecer uma relação de confiança com os moradores.
O resultado começou a aparecer de forma mais concreta em 2024, quando a parceria entre escola e comunidade se fortaleceu. A unidade escolar passou por melhorias e novos projetos começaram a sair do papel.
Horta e pomar ajudam a enfrentar dificuldades da comunidade
Com autorização do representante da comunidade, Neto França, a área destinada à escola foi ampliada para possibilitar a implantação de uma horta e de um pomar.
A iniciativa nasceu também de uma necessidade concreta. A distância da cidade, as dificuldades de transporte e a ausência de energia elétrica tornam mais complexo o abastecimento e a conservação de determinados alimentos.
A resposta encontrada foi produzir parte dos alimentos no próprio ambiente escolar.
Com participação da comunidade, foram realizados serviços de limpeza e preparação do terreno e iniciado o cultivo de frutas, hortaliças e legumes. A produção passou a contribuir para complementar a alimentação dos estudantes com produtos frescos cultivados no próprio local.
É justamente nesse processo que a autossustentabilidade deixa de ser apenas um conceito explicado no quadro e passa a fazer parte da experiência cotidiana das crianças.
A natureza virou sala de aula
Além das dificuldades estruturais, Cleia encontrou outro problema importante: a defasagem na aprendizagem de parte dos estudantes.
Diante de uma turma multisseriada e de uma realidade muito diferente daquela encontrada nas escolas urbanas, a professora passou a explorar pedagogicamente aquilo que existia ao redor.
A areia da praia virou espaço para escrever. Os gravetos passaram a servir como instrumentos para formar letras, palavras e números. A floresta, o rio, as plantas e os alimentos transformaram-se em recursos pedagógicos.
A estratégia aproximou os conteúdos escolares da realidade vivenciada pelas crianças e aumentou o envolvimento dos estudantes nas atividades.
Leitura, escrita, matemática, ciências e educação ambiental passaram a dialogar com experiências práticas desenvolvidas dentro e fora da escola.
“Transformar é Preciso: do Palmar para a Mesa”
Foi a partir dessas experiências que surgiu o projeto interdisciplinar “Transformar é Preciso: do Palmar para a Mesa”, hoje uma das principais ações pedagógicas desenvolvidas pela escola.
O projeto acompanha todo o ciclo dos alimentos: plantar, cuidar, observar o desenvolvimento, colher e levar para a mesa aquilo que foi produzido pelos próprios estudantes e pela comunidade escolar.
Cada etapa pode se transformar em conteúdo pedagógico.
Ao plantar, as crianças aprendem sobre solo, sementes, água e meio ambiente. Ao acompanhar o crescimento das plantas, trabalham observação, registro, leitura e noções de tempo e medidas. Na colheita, entram conhecimentos relacionados à quantidade, alimentação e valorização do trabalho coletivo.
Dessa forma, a autossustentabilidade funciona como eixo integrador de diferentes áreas do conhecimento.
Mais do que produzir alimentos, a proposta busca desenvolver consciência ambiental, segurança alimentar, autonomia e responsabilidade, demonstrando aos estudantes que conhecimento escolar e vida cotidiana não precisam caminhar separados.
Comunidade participa da transformação
O projeto também representa o fortalecimento da relação entre escola e comunidade. A estrutura construída ao longo dos últimos anos contou com pessoas que contribuíram de diferentes maneiras para tornar as ações possíveis.
Entre os colaboradores estão João e a equipe da Serradora São João, com apoio à infraestrutura; Emerson Monteiro, conhecido como Chama no Peito; Rezene, o Estopa, no transporte e apoio logístico; Seu Jesus, colaborando nas diversas atividades da escola; e Vany, no transporte e nas ações comunitárias.
À frente da iniciativa está Cleia Barroso, idealizadora e coordenadora do projeto, articulando o trabalho pedagógico com a participação dos moradores.
Quando a realidade também ensina
A experiência da Escola Aurelino Pereira de Brito-VII chama atenção especialmente porque não tenta reproduzir, no meio rural, uma realidade escolar que não existe ali. O projeto faz o caminho inverso: utiliza o território, a natureza, os conhecimentos da comunidade e suas necessidades concretas como instrumentos de aprendizagem.
Em uma pequena escola às margens do Rio Liberdade, uma horta pode ser laboratório de Ciências; uma colheita pode ensinar Matemática; uma planta pode estimular leitura e escrita; e a produção do próprio alimento pode ensinar responsabilidade, cooperação e preservação ambiental.
O projeto “Transformar é Preciso: do Palmar para a Mesa” mostra que uma escola rural pode fazer muito mais do que superar suas limitações: pode transformar essas próprias condições em oportunidades pedagógicas.
Na comunidade Santa Rita, aquilo que nasce da terra também está ajudando a produzir conhecimento. E, entre sementes, livros, rios e floresta, a educação vai criando raízes.







