Foto: Sérgio ValeO leitor com olhos e lembranças calejados vai se recordar de uma cena: onde hoje funciona o Posto da Tucandeira, o então governador Edmundo Pinto estourou uma garrafa de champagne para celebrar a pavimentação da BR-364, entre Rio Branco e Porto Velho. Era início dos anos 90. Com cinegrafistas e fotógrafos devidamente armados, o político mais popular do Acre não perdeu a chance de jogar a última pá de asfalto e selar uma integração rodoviária com o país, sempre ameaçada a cada inverno, quando tudo peleja para se desmanchar por aqui.
A rodovia começa paulista e termina acreana, calculada nas pranchetas de Juscelino Kubitschek. Mas foi na ditadura civil-militar que ela justificou o mote “integrar para não entregar”. Do ponto de vista estritamente econômico, é uma rodovia estratégica para o agronegócio brasileiro. Para o Acre, a conversa fica mais séria: ela é fundamental para muita coisa, inclusive tudo. Consciente disso, a classe política manipula o debate sobre a BR-364 ao sabor das conveniências. Mas antes de falar das traquinagens eletivas, uma breve explicação se faz necessária.
Como a Geografia é uma ciência que explica muita coisa, inclusive a guerra, ela ajuda a entender o porquê de a BR-364 ter um significado diferente para o acreano. A Cordilheira dos Andes não nos permitiu ter um rio que nos unifique de uma ponta a outra do Acre. A água desce a “ladeira” no sentido Andes-Planície Amazônica. Em tese, podemos sair de Mâncio Lima e chegar à Praia da Base de barco. Mas é um itinerário que demoraria muito tempo para ser cumprido e daria às coisas daqui um ritmo mais lento do que já tem.
Quem faz essa “costura” entre uma cidade e outra, entre uma “conta” e outra, feito um terço rezado com fé, é a BR-364. Mas a classe política não tratou dessa necessidade popular com o devido respeito.
Passados 35 anos da cena da champagne protagonizada por Edmundo Pinto, duas coisas continuam intactas, em relação à BR-364: a importância da rodovia federal para integrar o povo do Acre e o uso eleitoreiro dela, construindo e desconstruindo ilusões de quatro em quatro anos. Para não espichar muito o tempo e comprometer a memória, de Sarney a Lula 3, passando por Collor, Itamar Franco, FHC, Dilma Rousseff, Michel Temer e Bolsonaro, a classe política sempre tratou o povo como um detalhe ao longo da estrada no trecho acreano. Uns investiram mais; outros menos e dois não investiram, praticamente, nada.
Entre 2017 e 2022, sem recursos aplicados de forma minimamente comprometida com o povo daqui, a estrada foi se desmanchando. Aliás, foi justamente durante parte deste período que a classe política do Acre mais poderia ter feito intervenções em favor da BR-364. Foi quando o Acre se agigantou sobre o Orçamento Público do país. E, no entanto, foi quando mais se viu silêncio e omissão.
Atualmente, houve a decisão política de aplicar, em alguns trechos entre Rio Branco e Cruzeiro do Sul, o mais alto grau de intervenção de engenharia para estradas: o uso do macadame hidráulico é a síntese de uma decisão. Afinal de contas, R$ 6 milhões por quilômetro com o uso dessa técnica em uma estrada no Acre só mesmo uma decisão de ordem política é capaz de explicar.
21 de junho de 2026 – 06h32
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OPINIÃO