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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Difusora Acreana: “A Voz das Selvas” de sempre faz 72 anos

Sala Memória tem um amplo acervo de equipamentos antigos que contam a história da Difusora e da radiodifusão no Acre e no Brasil (Fotos: Luciano Pontes/Secom)
AGÊNCIA ACRE - Ela nasceu durante a Segunda Guerra Mundial, a 25 de agosto de 1944, e funcionou precariamente numa sala do Instituto Getúlio Vargas em Rio Branco, o prédio do Colégio Acreano. Na frente do instituto, na inauguração, foi colocado sobre uma mesa um rádio Philips sintonizado na ZYD-9, “A Voz das Selvas”, que hoje, aos 72 anos, exibe um perfil invejável: cresceu e virou patrimônio histórico e cultural da acreanidade.

O mérito de sua fundação coube ao governador do ex-Território Federal do Acre na época, Silvestre Coelho, que percebeu a possibilidade de conectar o território produtor de borracha natural com o mundo em conflito. Na verdade, o governador apoiou a ideia de outro pioneiro, o “doutor Felipinho”, que, em meados de 1943, explorava o serviço de alto-falante preso a um poste no cruzamento da Marechal Deodoro com a Benjamim Constant.

O serviço, que funcionava no começo da manhã e no fim da tarde, com o recurso de um pequeno “motor de luz”, divulgava com atraso um noticiário sobre a guerra, o governo, a produção de borracha e outras novidades que chegavam a Rio Branco pelo telégrafo ou pelo Correio.

Para a audiência a céu aberto compareciam funcionários públicos, trabalhadores do comércio, seringueiros e seringalistas, pessoas de todo tipo interessadas no noticiário ou mesmo nos intervalos musicais. Felipinho acabou se tornando o primeiro diretor da rádio de verdade, inaugurada em 1944.

No país inteiro se vivia a Era de Ouro do Rádio, que projetou notáveis intérpretes da Música Popular Brasileira, como Dircinha e Linda Batista, Adelaide Chiozo, Francisco Alves e Nelson Gonçalves. Também atraía multidão para programas como O seu Repórter Esso, que divulgava boletins da guerra contra o nazismo, as narrações da Copa do Mundo, o concurso de Miss Brasil e as novelas radiofônicas, como “O direito de nascer”, que se ouvia com um lenço na mão.

Mas não em qualquer lugar dava para ouvir rádio, porque, em todo o Acre, até na capital, só tinha energia no começo da noite, por poucas horas, e os radinhos a pilha não tinham sido inventados ainda. De qualquer forma, a Difusora cresceu com seu serviço de mensagens, da capital para os mais remotos recantos da floresta, com o providencial aviso: “Pedimos a quem ouviu esta mensagem, retransmiti-la ao destinatário”.

A “rádio cipó” completava o serviço. Ficou mais fácil enviar avisos aos seringais, informar sobre pessoas que viajavam a tratamento de saúde, sobre a partida e a chegada de embarcações com mercadorias e pessoas, rio acima e rio abaixo. Foi isso que, desde o começo, gerou a maior audiência da RDA até os dias atuais. A emissora acreana superou a famosa Rádio Clube do Pará, que tinha surgido em Belém em 1928, espalhando suas ondas pela Amazônia.

O brilho resistenteA história da Difusora começou em 1944
(Foto: Gleilson Miranda/Secom)
Foi-se o tempo em que o noticiário sobre a guerra, a política e a cultura brasileira dependia do Correio Aéreo Nacional – mantido pelo Serviço Aéreo Militar do Exército e depois da aeronáutica – e de um avião monomotor (Douglas C- 47) que chegava ao Acre de tempos em tempos com a carga do Correio. A informação rápida da Difusora dependia apenas de algumas antenas.


E logo apareceu quem a inventasse, a baixo custo. O Manoel “da Justa”, que consertava máquinas e aparelhos de rádio, ofereceu seu invento: uma antena feita de arame nu de dez metros, em cujas pontas havia uma boca de garrafa. Podia ser melhor, mas funcionava. Dificuldade maior era obter apoio do Comércio e encontrar mão de obra com experiência para tocar a emissora. A dificuldade foi tanta que a jovem emissora ficou todo o ano de 1946 fora do ar, só retornando em 1947.


Um novo governador, com melhor visão e mais prestígio, o então major José Guiomard dos Santos, nomeado pelo presidente da República, em 1948 transferiu a rádio para um prédio próprio, construído pelo Governo do Território, onde a emissora funciona até hoje. Nessa nova fase, o diretor indicado foi Alfredo Mubarac, jovem intelectual que estruturou, equipou e atraiu gente talentosa para consolidar o empreendimento.


Mubarac foi, além de diretor, locutor, criador e apresentador de programas. Tinha acesso fácil ao Palácio Rio Branco, de onde emanava todo o poder territorial na época. Muitos nomes de sua equipe viraram estrelas, como o radialista Índio do Brasil, que criou o slogan “A Voz das Selvas”, Natal de Brito, Orsete do Vale, Edson Martins, Garibaldi Carneiro Brasil, Mota de Oliveira, José de Souza Lopes. Havia também mulheres: a pioneira Maria Júlia, Vilma Nolasco e Jacira Abdon, que fizeram história na RDA.


O José Lopes conseguiu um transmissor de ondas médias para a emissora e veiculou o maior sucesso do rádio acreano até hoje: a novela O Egípcio, de Ivani Ribeiro. Também passou pela direção o técnico Eurico Gomes da Fonseca Filho; o teatrólogo Francisco Gregório da Silva Filho, responsável pela mudança dos transmissores da RDA para a Sobral, em 1978; Francisco Pinto de Lima, o Madureira; o cineasta Adalberto Queiroz, que avançou com a contratação de pessoal – até então nenhum servidor da RDA era funcionário público –, e instituiu o Plano de Carreira, Cargos e Salários.


Na verdade, Queiroz avançou mais: fez reforma geral do espaço físico da emissora e nos transmissores, com potência máxima, colocou 9 válvulas QBK, e aumentou 9 metros na torre com mudança do espelho e muro de contenção em volta. Com tais procedimentos, a RDA passou a ser ouvida em todo o globo terrestre, e a partir de 1989 começou a receber cartas e fitas gravadas de todos os continentes, atestando sua belíssima sintonia e recepção.


Outros nomes ficaram conhecidos como diretores da rádio: Campos Pereira, por duas vezes, Altemir de Oliveira Passos, José Simplício da Costa, Francisco Bezerra da Silva, (introduziu importante unidade móvel com link para chamada imediata de qualquer ponto da cidade) Eduardo Barbosa, Washington Aquino, Jorge Henrique Queiroz e Jacira Abdon.
Identidade e tradição


A Difusora nunca parou de crescer e se tornar cada vez mais necessária aos povos da floresta, levando serviço, informação e entretenimento. Realizou em 1989 o concurso Garota Difusora, numa enorme passarela montada em Frente ao Palácio Rio Branco, cuja faixa foi arrebatada por Gisele Cristina, uma beleza da época.


Hoje a emissora integra o Sistema Público de Comunicação do Estado e está sob a direção do experiente radialista Júnior Cesar, mantendo boa audiência em muitas partes da Amazônia. É ouvida também em regiões longínquas, do país e do mundo, com sua programação original e tradicional, de alma acreana, tendo como ouvintes preferenciais seringueiros, ribeirinhos e indígenas.


Num passado recente, o povo arregaçou as mangas junto com Chico Mendes para defender as florestas do Acre e de toda a Amazônia. A RDA esteve junto, de algum modo, como meio de comunicação que tem clara função social e não abre mão de sua identidade regional.

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