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sexta-feira, 29 de março de 2013

Centenário de Júlio Ferreira Lima, o Seu Júlio Cachico

Seu Júlio Cachico, 100 anos!

Há cem anos nascia Júlio Ferreira Lima, popularmente conhecido em Tarauacá como seu “Júlio Cachico”. Agricultor, seringueiro, comerciante. Nasceu em 29 de março de 1913. À época que nossa cidade nascia. Descendente de nordestinos habitou o alto Rio Murú durante muitos anos, passando a morar próximo a Tarauacá, lá nas “Oito Praias”, no Rio Murú.
Anos depois mudou-se para a rua Manoel Lourenço, bairro da Praia, onde viveu até o fim de seus dias; dedicando-se ao comércio nas décadas de 70, 80 e início da década de 90. Com problemas na visão em decorrência das horas a fio em que passava defumando leite de seringa, a partir daí ficou impossibilitado de continuar exercendo a atividade comercial.
Casou-se com a D. Alzira. Dessa união nasceram, entre homens e mulheres, sete filhos: Raimundo (in memorian), Francisquinha, Peixoto (in memorian), Jóia, Cleta, Elmar e Eldon (in memorian). Depois, já na cidade, adotaram o Amiraldo. E a história familiar continua com netos, bisnetos e tataranetos. Gerações e gerações. Homem de conduta exemplar nos ensinou valores importantes, tais como: trabalhar, suar pelo próprio sustento; viver as próprias custas; respeitar as pessoas.
Dele herdei a paixão pelo Vasco da Gama, pela política, a boa prosa, escutar música e uma mesa farta. Recentemente também descobri que herdei o gosto pelo chá Hoasca. Pois naquela época de seringal Colombo, décadas de 50 e 60, ele bebeu por diversas vezes o Cipó – um dos nomes dado a esse chá milenar utilizado pelos povos amazônicos, conhecido aqui no Acre e ao redor do mundo também como Ayahuasca, Vegetal, Daime, dentre outros. Naquela época, lá no seringal, esse chá era preparado pelos irmãos Jaqueson e Gerson Furtado. Era um apreciador dessa cultura ancestral amazônica da qual hoje também faço parte.
Outra coisa que eu admirava era sua prosa. Cena comum naquela época com seus amigos mais próximos – especialmente à noite em sua casa. Ainda lembro de alguns habituais: Chico Sérgio, Orlando Marques, Joca Teles, Luiz Melo, Paulo Lins, Sebastião Gonzaga, Salustiano, Ubaldo Patoá, Rames e Samir Eleamen, dentre outros.
Era gostoso vê-los conversando, contando “causos”. Logo cedo, em sua loja, era possível reencontrá-los para tomar o cafezinho quente da dona Alzira – minha amada avó. Sua loja também era ponto de encontro das pessoas, seus fregueses, vindos dos seringais. Onde todos eram bem tratados e atendidos sem distinção de cor, credo e classe social.
Seu Júlio não era aquele homem brincalhão, mas também não era ranzinza. Lembro-me de tê-lo visto aborrecido apenas uma vez. Em 1985, escolha para o candidato a prefeito de Tarauacá. Ele partidário e convencional do velho MDB, tinha preferência pessoal pelo Sr. Chico Sérgio. A cúpula partidária da época sabedora disso o excluiu para que ele não participasse da convenção. Dali em diante afastou-se do ativismo político. Também não era aquele homem religioso, carola. Mas tinha uma imensa fé em Deus e uma devoção a Santo Antônio, mantendo uma pequena imagem de chumbo no caixa da loja. Eu o perguntava por que aquilo? Ele dizia que era pra dar sorte. Eu acho que dava mesmo. Ele me falava de uns livramentos acontecidos em razão dessa devoção.
Ainda jovem, na transição da infância pra adolescência, ganhei dele o “primeiro emprego” – vendedor. Entre uma coisa e outra ele já me ensinava na prática princípios que me servem até hoje: honestidade e integridade. Naquela época a maioria dos produtos ainda vinha a granel: arroz, feijão, açúcar etc. Muitas vezes a tarefa de pesar aqueles produtos era minha. Mas ele observava atentamente a pesagem para verificar se estava correta, se não estava faltando alguma coisa, e sempre aquela voz: - “deixa passar um pouquinho que não faz mal!”.
Disso lembro vagamente, mas minha mãe conta que eu com uns seis ou sete anos já lia. E como é natural essa afetividade do neto pelo avô e vice-versa, eu adorava a sua companhia. Assim eu ia muito a sua loja. Então ele me colocava pra ler aqueles folhetos de literatura de cordel pros seus amigos ouvir. Aquilo lhe dava uma enorme satisfação. Deixava-o lisonjeado.
Em 1982 aconteceu a primeira eleição majoritária e proporcional após a redemocratização. Eu, ainda menino, ficava ensinando as pessoas adultas a votar no Nabor Júnior, Mário Maia e nos outros candidatos do MDB. Era o tempo do voto camarão. Deu até vontade de rir agora! Incutindo em mim – subliminarmente – a vontade de participar ativamente da vida política. Eleição em interior era festa. Eu gostava daquele movimento. As regras não eram tão rígidas quanto agora. Enfim, como falei: era festa! Os que têm mais idade com certeza lembrarão dos folclóricos comícios de antigamente em Tarauacá.
Como era bom naquelas manhãs em que ficávamos na loja dele vendendo, conversando, ouvindo o rádio que ficava o dia todo ligado. Ele adorava escutar a programação da Rádio Nacional da Amazônia. Márcia Ferreira, Edelson Moura, José Neri e Paulo Torres. Esses eram seus locutores prediletos. A vida era mais amena, simples e adorável naquela época. Até hoje ainda adoro ouvir rádio. Já não é por meio daqueles rádios bonitos que ele tinha – e que de vez em quando eu os desmontava, agora é no carro ou pela internet, pois os tempos mudaram, mas preservei a cultura aprendida na infância.
Homem de bom coração, uma referência pra mim. Ainda guardo comigo o amor que sinto por ele. Até hoje a saudade que sinto permeia suavemente meu pensamento. Mais que um neto eu era seu fã! Queria ter convivido com ele numa fase mais adulta, ter aprendido mais coisas. Mas as coisas duram o tempo suficiente para tornarem-se inesquecíveis.
Lembro que quando comecei a trabalhar na Rádio Difusora de Tarauacá, em seu último aniversário em vida, ele me pediu que pusesse pra tocar uma música do Roberto Carlos: Meu querido, meu velho, meu amigo. Não lembro por que cargas d’água não fiz isso. Isso me dói até hoje.
Faleceu em novembro de 1992, vítima de um câncer na próstata. Com essa homenagem póstuma no centenário de seu nascimento terminarei com uns versos dessa música do Rei! E viva o centenário de Júlio Ferreira Lima! Viva o centenário de Tarauacá!

“Esses seus cabelos brancos, bonitos, esse olhar cansado, profundo
Me dizendo coisas, um grito, me ensinando tanto, do mundo...
E esses passos lentos, de agora, caminhando sempre comigo,
Já correram tanto, na vida, meu querido, meu velho, meu amigo.”

Jean Carlos Freire Lima
Administrador
Servidor da Justiça Eleitoral
Acadêmico de Direito

2 comentários:

cabo carmo disse...

Que era de ouro foi aquela,eu me lembro muito bem,nos morava no seringal Araripe hoje fazenda Cinco Estrela,o seu Julio morava mesmo no remanso do rio,hoje esta quase um kilometro da margem.

cabo carmo disse...

Estas recordações são umas verdadeiras reliquias para nos